Arquiteto e urbanista José Luis Puglia analisa situação de imóveis históricos e alerta para a necessidade de preservação da memória campista

(Fotos: Silvana Rust)
Construções que ajudam a contar a história de Campos dos Goytacazes enfrentam diferentes níveis de conservação, com imóveis fechados, deteriorados ou à espera de intervenções. Para o arquiteto e urbanista José Luís Puglia, a situação exige atenção e ações de preservação antes que os danos comprometam de forma definitiva parte importante do patrimônio arquitetônico e da memória da cidade. Este tema é destaque na reportagem “Abandono põe sob ameaça patrimônio histórico de Campos” (leia aqui).


Um dos exemplos citados na reportagem do J3News é o prédio da sede da Associação de Imprensa Campista (AIC), inaugurado em abril de 1944. Não há registro do arquiteto responsável pelo projeto, mas a construção é um dos raros exemplares da arquitetura Art Déco em Campos. “O estilo surgiu na França antes da Primeira Guerra Mundial, mas viveu seu auge entre as décadas de 1920 e 1930. O estilo celebrou a modernidade, a tecnologia, o glamour e a era industrial, com forte apelo visual decorativo.”


Para Puglia, justamente por sua importância arquitetônica, o imóvel necessita de uma intervenção que impeça o agravamento dos problemas existentes. “É um dos raros exemplos desse estilo arquitetônico na nossa cidade. A construção encontra-se com vários problemas de manutenção, necessitando de uma obra de restauração urgente, antes que os danos fiquem economicamente inviáveis para sua restauração.”
Museu Olavo Cardoso
Entre os casos mais preocupantes apontados pelo arquiteto está o Museu Olavo Cardoso. Para Puglia, o imóvel representa um exemplo do que considera uma situação extremamente negativa na relação do poder público com o patrimônio histórico. O Museu Olavo Cardoso é um exemplo deprimente de como o poder público cuida do patrimônio da cidade.”
Segundo o arquiteto, o casarão foi doado à Prefeitura com a condição de que fosse transformado em museu. O imóvel, uma construção em estilo eclético do final do século XIX, passou por uma obra de restauração que recuperou o casarão, a fachada voltada para a rua, o porão e os jardins.


A restauração foi inaugurada em 6 de agosto de 2006. O museu chegou a contar com um acervo considerado importante, incluindo mobiliário original e peças históricas, como o quadro A Partida dos Voluntários da Pátria.
Puglia relata, porém, que a situação mudou após a administração do então prefeito Alexandre Mocaiber. “Infelizmente, após o governo do prefeito Alexandre Mocaiber, o prédio foi abandonado e sistematicamente roubado e vandalizado.”
O especialista também chama atenção para o desaparecimento do acervo. “Hoje não se tem notícias do paradeiro do acervo e o prédio se encontra em ruínas, com partes que já desabaram, e a perspectiva de recuperação e restauro é praticamente inexistente. Lamentável.”
Hotel Gaspar
Outro imóvel histórico destacado pelo arquiteto é o Hotel Gaspar. O prédio vinculado à Santa Casa de Misericórdia foi cedido à Prefeitura de Campos, mas permanece fechado e sem utilização há mais de uma década. “Hoje se encontra fechado, sem uso, o que é muito negativo para a construção.”
Construído por volta de 1830, o imóvel teria pertencido ao fazendeiro regional José Gomes da Fonseca Paraíba e sido erguido originalmente como residência. A construção possuía dois pavimentos, em estilo eclético, e passou por uma ampliação no início do século XX, quando ganhou o terceiro pavimento.


Atualmente tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), o prédio, segundo Puglia, não teria passado por obras de restauração recentes. “Não temos notícias de obras de restauração e o fato de estar fechado há mais de uma década leva a uma deterioração muito grande do imóvel.”
O arquiteto destaca ainda que o prédio foi transferido para a Prefeitura, onde existem planos de revitalização.
Lyra de Apollo: um patrimônio em restauração
Em meio aos exemplos de abandono, Puglia apresenta a Sociedade Musical Lyra de Apollo como um caso que demonstra a importância da mobilização para preservar um patrimônio histórico.


A instituição foi fundada em março de 1870, e sua sede, inaugurada em 1914, foi construída com recursos provenientes de doações de associados e cidadãos campistas. O imóvel, tombado pela Prefeitura de Campos, apresenta características do estilo eclético, com duas torres laterais, telhados em ardósia e liras estilizadas no alto, elementos de inspiração francesa.


O prédio, entretanto, sofreu um grave incêndio em 1990. “Infelizmente, em 1990, o prédio sofreu um sinistro, pegou fogo, seu telhado ruiu, assim como o forro, assoalho e algumas alvenarias e revestimentos. Apesar dos danos, a história da Lyra de Apollo ganhou um novo capítulo com a realização de obras de restauração.
“Felizmente, o prédio está sendo restaurado graças ao trabalho do presidente Ricardo Azevedo e do arquiteto restaurador Humberto Neto, que já realizou mais de 80% da restauração, faltando agora detalhes para devolver esse patrimônio à cidade.”, conclui.
