Campos consolidou preferência eleitoral pela direita

A vitória de Lula (PT) na eleição presidencial de 2026 não se repetiu em Campos. No município, Flávio Bolsonaro (PL) recebeu a maioria dos votos nos dois turnos e terminou a disputa com 57,91% dos votos válidos, contra 42,09% do presidente eleito. O resultado reforça uma tendência observada desde 2018: a preferência do eleitorado campista, na disputa presidencial, passou a se concentrar em candidaturas identificadas com a direita.
A mudança, porém, não aconteceu de uma hora para outra. Os resultados das últimas eleições mostram uma trajetória de oscilações, que inclui períodos de força do PT e a posterior ascensão do bolsonarismo. Em 2010, Dilma Rousseff liderou o primeiro turno em Campos, mas José Serra (PSDB) venceu o segundo. Quatro anos depois, Dilma ganhou as duas etapas contra Aécio Neves, também do PSDB. A partir de 2018, o cenário mudou: Jair Bolsonaro, então PSL, superou Fernando Haddad (PT) com ampla vantagem e manteve a maioria dos votos no município em 2022, mesmo com a vitória nacional de Lula.
Em 2026, Flávio Bolsonaro (PL) repetiu o desempenho do pai ao vencer em Campos nos dois turnos. No segundo, entretanto, sua votação caiu pouco mais de 1,3 mil votos em relação à primeira etapa, enquanto Lula ampliou a própria votação em cerca de 25 mil. A diferença entre os dois diminuiu, mas não foi suficiente para alterar a liderança local.
A direita em outras disputas
A preferência por candidatos desse campo político também aparece nas eleições estaduais. Em 2014, com Anthony Garotinho (PR) e Luiz Fernando Pezão; 2018, com Wilson Witzel (PSC); 2022, com Cláudio Castro (PL). E neste ano, com Douglas Ruas (PL).
Na disputa pelo Senado, a alternância de nomes também merece atenção. Romário (PSB), em 2014. Em 2018, Flávio Bolsonaro (PSL); 2022, com Clarissa Garotinho (União Brasil) e, em 2026, os dois candidatos mais votados foram do PL: Carlos Portinho e Carlos Jordy. Juntos, somaram 248.690 votos.
Nas demais disputas proporcionais, candidatos do PL e do União também dividiram a liderança entre os mais votados nesta eleição, com Wladimir Garotinho (PL) e Delegada Madeleine (União) para deputado federal e Bruno Dauaire (UNIãO) na disputa estadual.
A preferência por Flávio também apareceu nas quatro zonas eleitorais de Campos. A maior vantagem foi registrada na 76ª Zona, que concentra eleitores da região Norte do município, onde o candidato do PL alcançou 62,23%.
O cenário se estendeu ao Norte e Noroeste Fluminense. Entre os 21 municípios considerados no levantamento, Flávio venceu em 17. Lula ficou à frente em quatro. Em cidades como Quissamã e Macaé, a disputa foi apertada.
Observação
Para analisar o panorama atual, o J3News conversou com quatro cientistas políticos: George Coutinho, Hamilton Garcia, Rafaella Jaeger e Rodrigo Lira.
Para Hamilton Garcia, o panorama é consistente com a manutenção de uma maioria conservadora na cidade. “Em relação às eleições presidenciais, o quadro parece muito associado à perda de apelo do PT sobre os setores moderados depois do desastre do Governo Dilma. A pequena perda de votos de Flávio no segundo turno de 2026 não altera esta configuração, devendo ser atribuída à campanha de rejeição empreendida pela militância petista, sensibilizando parcela dos votos moderados”, disse.
Rodrigo Lira destaca que a atuação do eleitor envolve diversos fatores. “O comportamento eleitoral é um fenômeno complexo, influenciado por diferentes variáveis. A preocupação com a segurança pública, por exemplo, possui um peso importante no Estado do Rio de Janeiro. Da mesma forma, a percepção sobre a economia, o custo de vida, o emprego, a qualidade dos serviços públicos e a avaliação dos governos influencia diretamente as escolhas”, afirma.
O bolsonarismo local
Rafaella Jaeger explica que, com a ascensão de Jair Bolsonaro, o antipetismo passou a encontrar uma nova referência política, reorganizando o campo da direita. A pesquisadora lembra que o crescimento desse segmento não significa que todos os eleitores tenham uma identidade ideológica consolidada.
Em Campos, ela aponta também a baixa presença institucional da esquerda ao longo das últimas décadas. “O PT, por exemplo, elegeu apenas dois vereadores desde a redemocratização, sendo um deles como suplente”, afirma.
A análise de Rafaella dialoga com o cenário nacional, discutido pelo cientista político Jairo Nicolau no livro ‘O Brasil dobrou à direita’. Para Rafaella, a influência de lideranças locais, especialmente da família Garotinho, também precisa ser considerada na compreensão do resultado campista.
“A predominância eleitoral da direita não significa necessariamente que os eleitores compartilhem uma identidade ideológica consolidada. As identificações com categorias como esquerda e direita se constroem a partir dos discursos das lideranças, dos temas em debate e das circunstâncias de cada eleição”, disse.
George Coutinho identifica uma estabilização da preferência pelo bolsonarismo em Campos desde 2018. Essa força, segundo o pesquisador, combina uma cultura política local com a atuação de lideranças que possuem influência junto à população.
“É o caso do ex-prefeito Wladimir Garotinho, por exemplo, que abraçou o bolsonarismo e empresta seu capital político e simbólico à coalizão da direita radicalizada. Por outro lado, se olharmos para as eleições presidenciais deste século, veremos que Campos também foi um município de expressiva votação petista até 2014. O desempenho deste segundo turno mostra que essa história não pode ser simplesmente apagada”, disse.
A disputa também nas redes
Os especialistas também destacam que a mobilização digital deixou de ser uma característica exclusiva da direita. No segundo turno de 2026, a campanha de Lula ampliou sua atuação nas ruas e nas plataformas digitais, buscando alcançar eleitores que não haviam escolhido o petista na primeira etapa.
Em Campos, Rafaella Jaeger cita o crescimento do perfil do diretório municipal do PT no Instagram, que passou de aproximadamente nove mil para mais de 31 mil seguidores. A pesquisadora também menciona a mobilização de estudantes, mulheres, trabalhadores e movimentos sociais durante a campanha.
George Coutinho observa que a comunicação digital ajudou a organizar manifestações e ampliar o alcance das ações políticas. Para ele, a disputa entre os dois turnos mostrou que a capacidade de mobilização pode alterar o ambiente eleitoral, mesmo em municípios onde uma candidatura já possui vantagem consolidada.
Lira também chama atenção para a capacidade de mobilização das campanhas e para o papel das redes sociais. Na avaliação dele, uma onda eleitoral pode produzir uma maioria expressiva sem representar, necessariamente, uma mudança definitiva nas convicções de toda a sociedade.
Mudanças e o que há de vir
A leitura dos resultados, portanto, aponta para uma preferência eleitoral da maioria dos campistas por candidaturas de direita, especialmente na disputa presidencial. Mas a trajetória desde 2010 mostra mudanças, influência de lideranças e escolhas que variam conforme o contexto e cargo.
“O debate eleitoral tem sido muito influenciado pelo antipetismo crescente desde 2013, pelas pautas ideológicas emergentes a partir de 2018, pelo antibolsonarismo desde 2022 e pela crise da corrupção institucionalizada, que a partir de 2026 assumiu um caráter muito mais gravoso do que aquela verificada em 2015 (Lava-jato) em função do caráter ‘ecumênico’ do caso Master e do roubo dos aposentados. As eleições municipais ficam mais protegidas destas influências, mas não totalmente resguardadas”, afirma Hamilton.
Para Coutinho, a derrota nacional do bolsonarismo abre também uma nova questão sobre a política local. “Uma liderança popular como Wladimir Garotinho, que apostou todas as fichas no bolsonarismo na reta final da campanha, seguirá como aliado leal ou buscará construir, dentro do campo conservador, um caminho próprio, com voz e projeto políticos particulares? Sobre o lulismo e o petismo em Campos, há um frescor, um fôlego vindo das ruas. Será suficiente para reenergizar o PT localmente? Esse será um desafio e tanto. Por isso, para 2030, admito muito mais curiosidade do que certezas. A consolidação de uma preferência eleitoral é um dado relevante, mas não significa que ela seja irreversível”, comenta.
