.

Assisti recentemente a um vídeo que ironiza a paranoia coletiva do nosso tempo: pessoas convencidas de que forças ocultas controlam tudo, enquanto a realidade concreta escapa por entre os dedos. A metáfora é potente porque fala menos sobre conspirações e mais sobre alienação.
Vivemos a era da hiperconectividade e, paradoxalmente, da desinformação em massa. Nunca se produziu tanto conteúdo; nunca foi tão difícil distinguir fato de narrativa. Nesse ambiente, cria-se uma distorção perigosa: muita gente passa a lutar contra aquilo que sustenta a própria sobrevivência.
Em Guarapari, conversando com um vendedor de caipirinha que trabalha o dia inteiro sob o sol, ouvi um desabafo inflamado contra o “governo comunista”, contra a “taxação do Pix” e contra os “ataques aos empreendedores”. Perguntei qual era o enquadramento da empresa dele. Resposta: MEI.
O Microempreendedor Individual — criado como política pública para formalizar pequenos trabalhadores, garantir acesso à previdência e simplificar tributos — é justamente um instrumento pensado para gente como ele. Ainda assim, ele bradava contra um inimigo abstrato que mal sabia definir.
Não se trata de esquerda ou direita. Trata-se de percepção. Quando o excesso de informação vira ruído, o trabalhador pode ser convencido de que o problema é a política que o incluiu, e não a estrutura que historicamente o excluiu. O resultado é trágico: o pobre de direita passa a defender a retirada de direitos que o protegem, acreditando estar defendendo liberdade.
A desinformação não apenas confunde. Ela reorganiza afetos, cria inimigos imaginários e dissolve a capacidade de reconhecer interesses concretos. E quando alguém luta contra a própria base de sustentação, não é apenas ele que perde. Perdemos todos.
O conteúdo dos artigos é de responsabilidade exclusiva dos autores e não representa a opinião do J3News.

