domingo, maio 24

Desmonte da antiga composição expõe falta de políticas para preservar patrimônio ferroviário

Desde março|Grande parte da composição dos trens que operavam na malha ferroviária da cidade está sendo fragmentada e levada para o Espírito Santo (Fotos: Silvana Rust)

Mais de 150 anos de história indo embora. Já imaginou? Está acontecendo em Campos. Desde março deste ano, grande parte da composição dos trens que operavam na malha ferroviária da cidade está sendo fragmentada e levada em carretas para o Espírito Santo. Tratam-se de 32 vagões inservíveis que foram revendidos pela companhia logística VLI, gestora da Ferrovia Centro Atlântica (FCA) em todo o país. Os equipamentos estão sendo cortados por uma empresa especializada no serviço, para que possam ser transportados aos poucos para o estado vizinho. As informações foram apuradas com exclusividade pelo J3News.

De acordo com a VLI, uma empresa foi contratada para promover a destinação ambientalmente adequada desses ativos. “Nossa firma tem o equipamento adequado para cortar esse tipo de ferro e assim facilitar o transporte. Após isso, a gente transporta em carretas. Neste período, chegamos a pegar vagões ainda com bancos de passageiros, com estruturas internas muito bonitas, apesar de mal consevadas”, conta o empresário responsável pela operação, em entrevista ao J3 no local.

Em visita ao espaço onde funcionava a antiga ferrovia no município, entre a Avenida 28 de Março e a BR-101, a reportagem do J3 verificou a ação coordenada de separação e transporte do material em carros, para em seguida serem levados embora dentro de caminhões. 

Trajetória desde a privatização
A FCA surgiu em 1996, a partir da desestatização da antiga Rede Ferroviária Federal (RFFSA). Gerida pela VLI desde 2011, é a maior ferrovia do país. Conectando sete estados e o Distrito Federal, as linhas da FCA são a principal via de integração entre as regiões Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste. Com a extinção definitiva da RFFSA em 2007, os ativos operacionais (infraestrutura, locomotivas e vagões, entre outros bens vinculados à operação ferroviária) foram arrendados às concessionárias operadoras das ferrovias. No caso de Campos, o patrimônio ficou por conta da FCA.

Desde a privatização, o transporte de cargas na malha ferroviária de Campos praticamente cessou. O transporte de pessoas, por sua vez, já era uma realidade distante. Isso porque no início dos anos 1980 deixaram de circular os trens de passageiros que uniam Niterói e Rio de Janeiro a Vitória. A exceção aconteceu em 2007, quando após a queda da Ponte General Dutra, a população teve acesso a um trem urbano de passageiros que fazia a linha Centro-Guarus, de forma gratuita. Tratava-se de uma composição especial, que utilizava duas locomotivas puxando os vagões.

Durou alguns meses  e ficou como a última lembrança para a população campista do que um dia, lá atrás, já significou uma revolução para os meios de transporte. Eis que, agora, em 2026, um novo movimento da gestão responsável pela ferrovia reacende o debate, a nostalgia e questionamentos sobre o destino deste patrimônio histórico. O prédio abriga, em pontos diferentes, as secretarias municipais de Educação, de Planejamento Urbano e de Assistência Social. Já os equipamentos caminham cada vez mais para figurar apenas na memória dos campistas.

Foto: Josh

DNIT
Os vagões, que já vinham se deteriorando no pátio há décadas, agora começam a ir embora. O jornal apurou que vão permanecer no pátio da antiga ferrovia apenas as estruturas marcadas como pertencentes ao DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) e reservadas para a Associação Fluminense de Preservação Ferroviária (AFPF). Entre estes está uma locomotiva azul, utilizada em 2007 no transporte de passageiros. O J3 consultou os dois órgãos, mas obteve resposta apenas do DNIT.

“O DNIT informa que há um conjunto de bens móveis (vagões de carga, principalmente) que eram da antiga RFFSA e foram recepcionados pela autarquia. Estes bens são encaminhados para leilão ou para entidades públicas ou de interesse público para preservação da memória ferroviária, por meio de doação. A ação está alinhada à política nacional de gestão eficiente de ativos públicos, promovendo o reaproveitamento consciente e sustentável de bens que não são mais utilizados nas operações ferroviárias”, diz o órgão federal.    

A malha ferroviária ainda corta vários pontos da cidade e pode ser vista especialmente no subdistrito de Guarus. Em alguns locais de Guarus e no distrito de Travessão, os trilhos de trem foram arrancados e viraram calçadão e praças de convivência. A Ponte Nilo Peçanha, sobre o Rio Paraíba, também ficou como recordação apenas, já que sem boa parte dos trilhos, não há mais caminho para chegar nela.

História e preservação
A malha ferroviária surgiu em Campos no século 19, diante do crescimento da lavoura açucareira. É então que em 1873 acontece a inauguração da ferrovia ligando Campos a São Sebastião.  Em 1875 ocorreu a inauguração da estrada de Ferro Macaé e Campos. Com os engenhos e as atividades usineiras crescendo, vários trechos ferroviários foram surgindo pela região. Até que, em 1887, chegou a “Companhia Estrada de Ferro Leopoldina”. Em 1907, a Leopoldina construiu a ponte sobre o Rio. Para a historiadora Graziela Escocard, a história da ferrovia em Campos ajuda a explicar a própria formação econômica e urbana da cidade.

“Durante décadas, os trilhos representaram progresso, integração regional e desenvolvimento da indústria açucareira. A antiga linha da Leopoldina conectava Campos à capital e ao interior fluminense, permitindo o transporte de passageiros, mercadorias e, principalmente, da produção ligada ao ciclo do açúcar, que impulsionava a economia da região”, comenta.

E acrescenta: “Hoje, o patrimônio ferroviário remanescente ajuda a contar a história de uma época em que o apito da locomotiva marcava o ritmo da cidade e simbolizava o avanço econômico da região”, complementa. Na publicação do J3News que noticiou em primeira mão a retirada dos vagões, foram quase 170 compartilhamentos e cerca de 30 mil visualizações. Nela, surgiram vários comentários sobre o destino que poderia ser dado à antiga ferrovia e os seus ativos. Alguns, inclusive, sugerindo a implantação de um museu ou centro turístico no espaço.

retirada|Mais de 30 vagões inservíveis que foram revendidos pela companhia logística VLI

Diretora do Museu Histórico e presidente do Instituto Histórico e Geográfico, Graziela Escocard aprova a ideia. “A ferrovia tem grande importância. O espaço onde ela funcionava teria um grande potencial para se tornar um centro turístico muito legal. Campos só teria a ganhar”, diz Graziela.

Jornalista e membro do Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural  (Coppam), Cássio Peixoto enfatiza que preservar o patrimônio ferroviário deveria ter sido um assunto mais pautado na cidade.

“Para além da importância cultural que essas peças têm, nós demos muito pouca importância para o que sobrou da nossa malha ferroviária e das peças que ela contém. Durante muito tempo tratamos como material inservível, em todos os pontos de vista. Perdemos a oportunidade de transformar a ferrovia  em patrimônio, por exemplo, ou boa parte dela. Mas acho que ainda há tempo de consertar algumas coisas, depende muito da vontade política e da movimentação da sociedade civil”, pontua.

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