Moradores relatam rotina de insegurança diante avanço das facções que controlam a área
Festas de família canceladas. Comércio fechando mais cedo. Portões reforçados com cadeados. Ruas vazias depois do anoitecer. O medo passou a fazer parte da rotina de moradores de distritos da região Norte de Campos, como Morro do Coco, Santa Maria, Conselheiro Josino, entre outros. Em meio a relatos de disputa entre facções criminosas por territórios, a população convive com homicídios, ataques armados, pichações com mensagens de intimidação, registro de homens fortemente armados circulando pelas ruas e até músicas usadas como forma de ameaça.
A sensação de insegurança ganhou força nas últimas semanas, período marcado por uma sequência de crimes violentos e operações policiais. De acordo com moradores, a violência mudou completamente a rotina dessas localidades, principalmente em Morro do Coco, onde tem concentrado mais casos.

Rotina de medo
“Essa semana mesmo roubaram três transformadores e animais de uma fazenda. Estão assassinando, entrando nos locais. É briga de traficante. O negócio está feio. Ninguém sai de casa mais depois das oito da noite”, relata uma moradora.
Ela afirma que o policiamento foi reforçado recentemente, mas diz que o receio permanece. “A polícia está apertando o cerco, mas as pessoas trabalhadoras, idôneas, ninguém sai mais. Estamos todos com receio. A briga é entre eles [facções], mas é a população que vem sofrendo. Comércio, sete horas da noite, fecha”, afirma.
Outra moradora conta que a mudança começou há cerca de cinco anos. “Começou com pequenos furtos, depois com sequestros… até chegar onde estamos hoje”, disse. Segundo ela, atualmente existe maior presença policial após os episódios mais recentes, mas o clima continua de medo. “Muito medo. Comércio fechando mais cedo. Poucas pessoas nas lanchonetes e bares”, completa.
Ele também observa mudanças no perfil da criminalidade. “Muita gente de fora nos últimos tempos. A gente que mora lá a vida toda já nem conhece mais as pessoas. Mas o aliciamento local é enorme também. Inclusive os ‘donos’ das bocas são meninos novos de Morro do Coco mesmo”, conta.


Homicídios
Nas últimas semanas, Morro do Coco registrou uma sequência de ocorrências. Entre elas, o ataque de quatro homens armados a um grupo de pessoas, que deixou um ciclista ferido; o assassinato dos irmãos Carlos Henrique e Uenderson Duarte Soares dentro da própria residência; uma casa atingida por diversos disparos dias depois; além de operações das polícias Civil e Militar que resultaram em prisões, apreensão de armas, munições, drogas, rádios comunicadores e veículo clonado.
Em outra ação realizada no distrito, quatro pessoas que estavam em uma residência foram levadas pela PM para a delegacia: dois homens e duas mulheres. Os homens permaneceram presos por tráfico de drogas e associação para o tráfico. As mulheres prestaram depoimento e foram liberadas.
Horas depois, uma delas, Rackelly Monteiro Siqueira, de 18 anos, foi executada dentro da própria residência, em Santo Eduardo. Ela havia sido conduzida à delegacia por estar no imóvel onde ocorreu a operação, mas acabou liberada.
Também foram registrados furtos em propriedades rurais, com o roubo de transformadores, animais e materiais agrícolas, apreensões de munições em Areia Branca e a tentativa de homicídio de um motoboy de 21 anos.
Os crimes acontecem em meio a relatos de uma possível disputa entre facções na região, incluindo criminosos de São Francisco de Itabapoana. Informações obtidas pela reportagem apontam que integrantes da facção Amigo dos Amigos (ADA) buscam tomar o domínio em Morro do Coco, área que, segundo informações, tem predominância do Terceiro Comando Puro (TCP).
Entre operações policiais e desafios estruturais
A socióloga e professora da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), Luciane Silva, chama atenção para a ausência do Estado em localidades mais afastadas.
Em muitas pesquisas com o 8º BPM, tivemos informações sobre a dificuldade no policiamento de Campos. A cidade vai crescendo em problemas e complexidade, mas esse crescimento não é acompanhado de um aumento do efetivo. Os distritos ficam um pouco à própria sorte. Não tem policiamento, não tem nem UBS, não tem nada”, disse.


“Por que se cria essa dominação do tráfico? Porque não tem Estado e não tem controle capaz de fazer frente à dominação do tráfico. Não estou culpando os policiais nem o 8º Batalhão, isso é um problema de efetivo de policiamento na cidade. E Campos é o município mais extenso do Rio de Janeiro”, completa.
Luciane cita São Francisco de Itabapoana como exemplo de município que passou a registrar disputas entre facções. “A criminalidade se expande para áreas nas quais você não via assaltos e roubos. Um exemplo do problema é São Francisco, uma área que seria a ‘Capital do Agro’, e tem facções se matando nas praias de Guaxindiba, Santa Clara e Manguinhos. Isso é uma questão por conta das rotas, das possibilidades de ter um tráfico que tem grande capacidade de fuga”, afirma.
Para a socióloga, a discussão sobre segurança pública precisa ir além do policiamento. “Os distritos, percebo um abandono em relação às áreas mais centrais. A segurança pública não se limita ao trabalho da polícia. Quando tem um problema com iluminação na rua, tem um ponto possível para aumento de assaltos. Quando começa a deixar áreas como praças sem o controle do poder público, essas praças podem virar espaços de criminalidade. Então, uma cidade que funciona precisa ir muito além da presença policial”, afirma.
Segundo ela, a falta de serviços e estruturas públicas pode ampliar a vulnerabilidade dessas localidades. “Na medida em que os distritos ficam um pouco à própria sorte, você tem uma possibilidade de aumento, sim, dos níveis tanto de assaltos quanto de ação faccional”, conclui.
A pesquisadora defende ainda a criação de um observatório permanente sobre segurança pública em Campos, reunindo universidades, forças de segurança, Judiciário e sociedade civil para produzir dados, promover debates e acompanhar indicadores de criminalidade.


Polícias Militar e Civil
Em nota, a Polícia Militar informou que o policiamento ostensivo na região Norte de Campos é constantemente reavaliado com base na análise criminal e nos indicadores de incidência. Segundo a corporação, entre as estratégias adotadas estão operações em corredores viários, intensificação de abordagens, fiscalização de motocicletas e reforço do patrulhamento, inclusive no período noturno, sempre que a dinâmica criminal indicar necessidade.
A Polícia Civil afirma manter atuação permanente no enfrentamento às organizações criminosas na região, por meio das 134ª DP (Centro), 146ª DP (Guarus) e 147ª DP (São Francisco de Itabapoana) e reforçou que as investigações são conduzidas com base em inteligência e análise de dados para identificar e prender integrantes de facções e desarticular suas estruturas. A Polícia Civil informou, ainda, que atua de forma integrada com a Polícia Militar, responsável pelo policiamento ostensivo, reforçando a repressão qualificada às práticas criminosas e a preservação da ordem pública. A instituição reforça a importância de registros de ocorrência e de denúncias anônimas pelo Disque-Denúncia, que subsidiam o trabalho de inteligência.
