domingo, outubro 11

Artistas improvisam, pagam a conta e cobram data para voltar aos palcos

Fotos: Silvana Rust/Anaceli Nuffer/Arquivo Pessoal

Em Campos, o palco ficou sem plateia. O Teatro Municipal Trianon e o Teatro de Bolso Procópio Ferreira, dois  dos equipamentos mais importantes da cultura da cidade, estão com a programação suspensa, e quem vive da cultura na cidade tenta se virar enquanto espera uma resposta. A Prefeitura informou por nota que trabalha para restabelecer as condições do Teatro de Bolso até 30 de outubro. Para o Trianon, não há previsão de reabertura.

O problema não é novo. Há cerca de dois meses, em agosto, o J3News publicou uma reportagem sobre a sobre dificuldades de infraestrutura e cobranças por manutenção. De lá para cá, a situação só se agravou.

Dois teatros, muitos problemas
Segundo a Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), o Teatro de Bolso foi alvo de duas ações criminosas que levaram fios e condensadores do ar-condicionado. Depois de uma visita técnica, a Prefeitura definiu uma solução para os reparos. A Polícia Civil investiga os furtos, e a Polícia Militar foi acionada para reforçar o patrulhamento da região. As aulas e atividades administrativas continuam, pois os danos se concentram na área de apresentações. A Fundação diz trabalhar para evitar cancelamentos.

O caso do Trianon é outro. O sistema de climatização, com cerca de 28 anos de uso, apresenta problemas que podem comprometer a segurança de público, artistas e trabalhadores, e por isso o teatro está indisponível. A Prefeitura avalia se é possível uma solução provisória, enquanto estuda a recuperação definitiva. Quem pré-agendou datas em outubro e novembro já foi avisado de que não há confirmação. O J3News também questionou sobre ressarcimento de produções e plano emergencial para o setor, mas a nota não trouxe detalhes.

Fernando Rossi

Quando o espetáculo não pode esperar
Quando foi aberta a temporada de agendamentos dos teatros para o segundo semestre, o diretor teatral e produtor cultural Fernando Rossi tinha pedido duas datas na pauta para o fim de novembro e início de dezembro. Ele preparava dois espetáculos, um infantil e um adulto, e já investia nas produções quando receber a ligação da coordenação artística do Teatro de Bolso, que avisava que o ar-condicionado havia sido furtado e que, por determinação da presidente da Fundação, as atividades estavam suspensas até o fim do ano.

“Eu fiquei indignado com essa informação”, conta Rossi, que escreveu uma carta aberta e recebeu apoio de muita gente da área. A resposta oficial, porém, não o convenceu. “Disse que eles vão fazer, mas não deu prazo, e aí estamos com esse silêncio ensurdecedor por parte dos responsáveis pela cultura da nossa cidade”, afirma.

O palco que a produção montou
Quem também sentiu o baque da suspensão das atividades dos teatros foi Ellen Pessanha, dona de uma academia de dança de São João da Barra. Ela produz o ‘Festival de Dança Campos’, que teve a sua terceira edição em 26 de setembro. Em anos anteriores, o festival ocupava o Trianon. Ela conta que soube da indisponibilidade do teatro com apenas um mês de antecedência, quando grupos de dança de diferentes cidades já estavam mobilizados. A saída foi levar o evento para a quadra da Fundação Municipal de Esportes, a antiga AABB, com toda a estrutura bancada pela própria produção.

Ellen Pessanha

O festival reuniu escolas e grupos de Macaé, Natividade, Casimiro de Abreu, Itaperuna, Nova Friburgo, Cabo Frio, Niterói, São João da Barra, São Fidélis, Quissamã, Volta Redonda, Rio de Janeiro e São Paulo. A programação contou com uma gala em parceria com o Theatro Municipal do Rio de Janeiro e jurados convidados.

Para espetáculos de dança, o Trianon já possui a estrutura de plateia, camarins, som e luz instalados. “Infelizmente o descaso com a classe artística nos causou vários danos”, resume Ellen, que fez a conta na ponta do lápis. O piso de linóleo,  material próprio para dança, é um item que o Trianon já possui. Mudar o local do evento custou R$2.500 por diária pelo aluguel do linóleo, que veio do RJ, além de cinco rolos de fita para instalá-lo, que somaram R$900, segundo Ellen. Ela observa que, mesmo quando o Trianon estava disponível, o aluguel não cobria todas as necessidades da produção, exigindo despesas com materiais, equipes técnicas e de camarins.

Integrante do primeiro corpo de baile do Trianon, Ellen acompanhou a construção do teatro e lamentou sua situação. “Essa história dói na alma. Como bailarina, produtora e diretora de um evento que movimenta o turismo , lazer e cultura da cidade, em nome da minha classe, pedimos respeito. A arte é vida. O teatro é a casa do artista”, diz.

O fechamento do Trianon também mudou os planos da Tríade Studio Coreográfico, de Campos. Um dos diretores da escola, Leon Jackson, conta que o grupo, dirigido também por Diego Rosa e João Paulo Manhães, preparava para este ano uma montagem de Aladdin, planejada especialmente para a estrutura do teatro. A Tríade realiza espetáculos no espaço desde 2018 e, no ano passado, apresentou uma produção de Wicked. Com as incertezas sobre o funcionamento do Trianon, os investimentos e preparativos precisaram ser interrompidos, e o espetáculo foi transferido para outro local. “A gente teve que começar tudo do zero”, relata Leon, explicando que a mudança exigiu adaptações na concepção artística da montagem.

Segundo o diretor, a Tríade busca transformar as apresentações de dança em grandes produções, com elementos teatrais, musicais e efeitos especiais. Ao longo dos anos, o grupo já realizou efeitos de chuva, colocou um carro no palco e, em Wicked, utilizou voo cênico sobre a plateia. Para Aladdin, a proposta era ampliar ainda mais essas experiências, mas o novo espaço não oferece as mesmas possibilidades técnicas. “Esse ano, infelizmente, a gente vai ficar um pouquinho mais contido”, lamenta. Apesar das limitações, Leon garante que a produção será realizada e que a equipe pretende entregar um espetáculo encantador ao público.

A relação de Leon com o Trianon começou há quase 20 anos, quando subiu ao palco pela primeira vez como aluno de dança. Desde então, acompanhou o espaço como bailarino, professor e produtor cultural. Para ele, o fechamento representa não apenas uma dificuldade para os artistas, mas também uma perda para o público da cidade. O diretor critica a falta de manutenção contínua e teme que a paralisação prolongada provoque uma deterioração ainda maior da estrutura. “Eu espero de coração que não seja uma coisa a longo prazo”, afirma. A expectativa é retornar ao Trianon em 2027, com novas produções e a possibilidade de voltar a explorar os recursos de um dos principais palcos da cidade.

Um problema antigo
Para a presidente do Conselho Municipal de Cultura, Ianani Dias, o que se vê nos teatros é “sintoma de um projeto, de um processo que já vem colocado, não de agora, mas desde 2007”. A passagem de secretaria para fundação veio com a promessa de que ter CNPJ facilitaria a captação de recursos, mas, na avaliação dela, aconteceu o contrário.

Ianani Dias

Ianani cita um orçamento de R$14 milhões para os 12 meses do ano, em grande parte gastos com pessoal, estrutura mínima e festas do calendário, como carnaval e verão. Já o Fundo Municipal de Cultura teria previsão de R$11 mil e, sem o dinheiro da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), o cenário seria ainda mais apertado. Atrasos de editais, segundo ela, também vêm da falta de gente na Fundação. “A cultura está falida”, afirma.

O problema, diz a presidente do Conselho, não se limita aos teatros. O Palácio da Cultura não abre aos sábados, justamente o dia em que muitos trabalhadores poderiam visitá-lo, e o museu da cidade chegou a ficar meses sem luz. Ianani também questiona o destino do dinheiro dos aluguéis do Trianon e do Centro de Eventos Populares Osório Peixoto (Cepop) que, pela lei, deveriam alimentar o Fundo Municipal de Cultura e, segundo ela, não chega lá. “É uma gestão que está decretando a falência da cultura”, completa.

Imprensa em coro
O J3News, Folha da Manhã, Descubra Campos e Revista Fever assinaram uma nota conjunta em defesa dos teatros públicos de Campos. O documento ressalta que a paralisação vai além da suspensão de espetáculos: prejudica artistas, técnicos e produtores, interrompe projetos e restringe o acesso da população à cultura. Os veículos cobram planejamento, transparência, prazos para a recuperação dos espaços e medidas que garantam a continuidade da produção cultural. “Cultura não pode esperar. Campos também não”, conclui a nota.

O J3News também destaca a necessidade de preservar outros patrimônios públicos, como o Coreto da Praça do Liceu, o Museu Olavo Cardoso e o Solar dos Airizes, reforçando a cobrança por uma política permanente de manutenção e valorização dos equipamentos culturais da cidade.

Próximo ato
O Conselho quer participar da audiência pública da Lei de Diretrizes Orçamentárias para disputar mais capacidade de execução de projetos em 2027, e leva na bagagem o documento do fórum de cultura do mês passado. Enquanto isso, o dia 30 de outubro vira o primeiro teste: se o Teatro de Bolso reabrir, ao menos uma cortina volta a subir. Para o Trianon, a Fundação diz que tudo depende das avaliações técnicas e da garantia de segurança.

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