Pesquisadora destaca a importância de preparar a sociedade para uma vida mais longeva

A professora e pesquisadora Rosalee Istoe, da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, dedica-se há pelo menos duas décadas a assuntos relacionados ao processo de envelhecimento em Campos dos Goytacazes. Ela possui uma série de artigos e publicações referentes ao tema, em edições nacionais e internacionais. Pesquisadores, graduandos e pós-graduandos da UENF preparam o I LONGEVIVER – Congresso Interdisciplinar Regional de Longevidade e Envelhecimento Humano e o IV CONASEH – Congresso de Atualização em Saúde e Envelhecimento Humano. O evento acontecerá de 29 e 31 de julho.
Professora Rosalee, qual é a importância de a UENF sediar o IV Congresso Nacional de Longevidade e, pela primeira vez o LONGEVIVER?
Trazer o Congresso Nacional de Longevidade para a UENF cumpre a nossa maior missão, idealizada por Darcy Ribeiro: ser uma universidade de portas abertas, conectada com a realidade. Esse evento representa o reconhecimento de um trabalho que vem sendo desenvolvido há muitos anos na universidade, especialmente por meio da UNATI (Universidade Aberta da Terceira Idade), em prol do envelhecimento ativo, da inclusão e da valorização da pessoa idosa. Além de reunir pesquisadores, estudantes e profissionais que atuam com idosos, o congresso também cria um espaço importante para a troca de experiências, a divulgação de pesquisas e o debate de temas que são cada vez mais urgentes na nossa sociedade.
O Brasil está envelhecendo rapidamente. Quais são os principais desafios que esse novo cenário demográfico impõe às famílias, aos governos e à sociedade?
O envelhecimento da população brasileira é uma grande conquista, resultado dos avanços na saúde e da melhoria das condições de vida. Porém, um dos principais desafios que encontramos é garantir que as pessoas envelheçam com qualidade de vida, tendo acesso à saúde, educação, lazer, mobilidade e segurança. Isso exige investimentos em políticas públicas que atendam às necessidades da população idosa, além da preparação dos serviços de saúde para lidar com o aumento das doenças crônicas e das demandas por cuidados de longa duração. Por isso, discutir a longevidade é cada vez mais necessário. Precisamos nos preparar para uma sociedade em que as pessoas viverão mais tempo, garantindo que esses anos a mais sejam vividos com dignidade, autonomia e inclusão.
Quando falamos em longevidade, estamos nos referindo apenas a viver mais ou também a viver melhor? Como a senhora define esse conceito?
Os dois. Aumentar a expectativa de vida é uma grande conquista da sociedade, porém não basta apenas acrescentar anos à vida. É preciso garantir que esses anos sejam vividos com saúde, autonomia e bem-estar. Longevidade significa viver mais e, principalmente, viver melhor, com dignidade, independência e qualidade de vida em todas as etapas do envelhecimento.
Quais temas estarão em destaque durante o congresso e quais debates considera mais urgentes neste momento?
Os temas em destaque no nosso evento serão: envelhecimento, saúde, qualidade de vida e autonomia; cognição, memória e saúde mental; educação, cultura e participação social; saúde bucal, autoimagem e bem-estar; direitos, políticas públicas e inclusão. Entre os temas que exigem maior atenção, podemos destacar a inclusão da pessoa idosa na sociedade, o combate ao etarismo, a acessibilidade e a mobilidade urbana, a saúde mental e o isolamento social, além da garantia de direitos e do cuidado humanizado.
O envelhecimento ainda é cercado por preconceitos e estereótipos. Como eventos científicos como este podem contribuir para mudar essa percepção?
Muitas vezes, a velhice é associada apenas à doença, à dependência ou ao fim da utilidade produtiva. É o que conhecemos como etarismo. Eventos científicos como o nosso têm um papel fundamental em quebrar esse ciclo de preconceitos. Em primeiro lugar, um congresso científico traz dados, pesquisas e fatos reais que desmentem esses estereótipos. A gente mostra que a longevidade hoje mudou. Estamos falando de um novo perfil de idosos: pessoas que estão estudando, empreendendo, viajando, praticando esportes e consumindo. Quando a ciência joga luz sobre essa realidade, aquela imagem do idoso frágil e isolado em uma cadeira de balanço começa a desmoronar. No fundo, um congresso como este faz plantar uma semente na cabeça das pessoas: envelhecer não é o fim de tudo, é apenas a continuidade da nossa história. E preparar a sociedade para respeitar e valorizar essa fase é o nosso maior desafio e a nossa maior missão.
A Universidade Aberta da Terceira Idade (UNATI) desenvolve diversas ações voltadas ao envelhecimento ativo. Que resultados a senhora observa na vida dos participantes?
A nossa UNATI vem trazendo resultados muito significativos, que vão desde a participação em atividades esportivas até as cognitivas. Percebemos que há um fortalecimento da autoestima, da autonomia e do sentimento de pertencimento dos nossos idosos. Muitos deles ampliam suas redes de convivência, desenvolvem novas habilidades aprendidas nas aulas, criam vínculos sociais e participam ativamente da UNATI, fazendo das atividades uma rotina, um compromisso. Também observamos melhora no bem-estar emocional e na confiança dos nossos idosos. Na UNATI, desenvolvemos atividades culturais, físicas e educativas. Tudo isso contribui para a manutenção da saúde física e mental, além de estimular o aprendizado contínuo do idoso. Outro aspecto muito importante é que a UNATI ajuda a desconstruir estereótipos relacionados à velhice. Os participantes passam a reconhecer suas potencialidades e a compreender que o envelhecimento pode ser uma etapa de muitas realizações, aprendizado e participação social.
Um dos projetos desenvolvidos na UENF aborda o letramento financeiro para pessoas idosas. Por que a educação financeira se tornou uma ferramenta tão importante para a autonomia na terceira idade?
O letramento financeiro está muito ligado ao conceito de Paulo Freire: trazer a educação para a prática, para as experiências do dia a dia. O idoso precisa se alimentar, pagar sua luz, sua energia. E, muitas vezes, ele vem de um processo em que não havia essa cultura de educação financeira desde a infância.
Então, quando chega à terceira idade, muitas vezes morando sozinho, o senso de urgência é real. A educação financeira é uma ferramenta de autonomia porque traz à pessoa idosa o conhecimento para tomar decisões próprias, evitar fraudes, abusos familiares e problemas relacionados ao mercado financeiro. Quando o idoso compreende como funciona, ele não depende de ninguém e não cai em golpes. Isso é autonomia de verdade.
De que forma as finanças comportamentais e os estímulos cognitivos podem ajudar os idosos a tomarem decisões mais seguras e conscientes em relação ao dinheiro?
As finanças comportamentais trabalham justamente o lado cognitivo do idoso. Quando fazemos esse letramento financeiro, estamos estimulando o pensamento, levando a pessoa a refletir e compreender melhor as situações. E funciona assim: o conhecimento gera autonomia; a autonomia gera o poder de decisão. Quando o idoso entende como funciona o dinheiro, ele consegue tomar decisões muito mais seguras e conscientes sobre suas finanças. Esses são justamente os estímulos cognitivos de que estamos falando nesse processo de pensar, compreender e decidir com segurança.
O aumento da expectativa de vida exige mudanças de hábitos desde cedo. Que orientações a senhora daria para quem deseja envelhecer com mais saúde física, mental, social e financeira?
O envelhecimento com qualidade de vida é resultado de escolhas e cuidados construídos ao longo de toda a trajetória de vida. É importante entender que a longevidade não se resume a viver mais, mas a viver melhor. Para a saúde física, é fundamental praticar atividade física, manter uma alimentação equilibrada e saudável e fazer acompanhamento médico periodicamente. Já na área da saúde mental, é importante manter a mente ativa. Isso pode ser desenvolvido de diversas formas: por meio da leitura, jogos de raciocínio, atividades de lazer e participação em atividades culturais. Nossa saúde social também merece atenção. Manter vínculos familiares e de amizade contribui para o sentimento de pertencimento e reduz o isolamento social, um dos grandes desafios do envelhecimento nos dias de hoje. E, não menos importante, está o planejamento da vida financeira: desenvolver hábitos de organização, poupança e consumo consciente para garantir maior segurança e autonomia no futuro.
Que mensagem a senhora gostaria de deixar para estudantes, profissionais, gestores públicos e para a população em geral sobre a importância de discutir a longevidade nos dias atuais?
A minha mensagem é que discutir a longevidade não é apenas falar sobre os idosos, mas também sobre o futuro de todos nós. Estamos vivendo mais, e isso é uma conquista dos dias atuais. É muito importante que estudantes, profissionais, gestores públicos e a população em geral se envolvam nesse debate de forma mais ampla. Também é importante compreender que envelhecer não deve ser visto como um problema, mas como uma etapa natural da vida, repleta de potencialidades, experiências e contribuições para a sociedade. Quanto mais cedo começarmos a pensar e planejar o envelhecimento, maiores serão as oportunidades de construirmos uma sociedade mais justa, acolhedora e preparada para todas as gerações.

