Dra. Carolina Cretton d’Avila destaca a importância do acolhimento emocional e do apoio familiar
O tratamento de uma doença crônica vai além dos cuidados médicos e das limitações físicas. No Setor de Nefrologia e Hemodiálise do Hospital Dr. Beda, a psicóloga Carolina Cretton d’Avila acompanha pacientes que enfrentam mudanças profundas na rotina, ansiedade, dificuldades emocionais e incertezas sobre o futuro. O trabalho busca compreender o sofrimento de cada pessoa e ajudá-la a lidar com a nova realidade, respeitando suas necessidades e seus limites.
A hemodiálise exige, geralmente, quatro horas por sessão, três vezes por semana. “A rotina pode provocar cansaço e frustração, especialmente entre pacientes que enxergam o tratamento como uma obrigação difícil de suportar”, comenta a psicóloga. Alguns questionam a continuidade dos cuidados diante da ausência de uma cura definitiva ou demonstram receio de entrar na fila para um transplante renal.
“Meu trabalho não é convencer ninguém. É dialogar, entender o motivo da recusa e o que está por trás desse ‘não quero’. A psicologia procura compreender os medos e as razões de cada paciente, sem impor decisões, oferecendo espaço para que sentimentos e dúvidas sejam expressos”, explica.
A profissional também aborda o que chama de “morte simbólica”, relacionada à diferença entre a vida anterior ao diagnóstico e aquela que passa a ser vivida após a descoberta da doença. A perda da autonomia, as mudanças de hábitos e as limitações físicas podem afetar a autoestima e a percepção que o paciente tem de si mesmo.
O acompanhamento também envolve questões como ansiedade e compulsão alimentar. Nesses casos, a psicóloga trabalha em conjunto com outros profissionais, como nutricionistas, para compreender os comportamentos e buscar alternativas que respeitem as necessidades clínicas de cada paciente.
Pessoas que convivem com diabetes e começam a perder a visão enfrentam dificuldades para realizar atividades que antes faziam normalmente. “Há pacientes que conseguem manter a rotina e encaram o tratamento com naturalidade, enquanto outros demonstram tristeza profunda e desânimo. A escuta psicológica ajuda a identificar essas diferenças e compreender o que está provocando sofrimento. Encontrar alternativas para pequenas vontades e preservar atividades prazerosas pode contribuir para tornar a rotina menos desgastante”.
Fé e família
A fé, a convivência familiar e os vínculos afetivos também podem representar fontes importantes de motivação. “Alguns dizem: ‘Eu tenho minha esposa, tenho meus filhos e continuo por eles’”, relata. Animais de estimação também aparecem como referências de afeto e apoio para pessoas que enfrentam o tratamento prolongado.
O cuidado psicológico, porém, não deve se restringir ao paciente. A família frequentemente assume responsabilidades intensas, envolvendo consultas, medicamentos, transporte e acompanhamento diário. Essa dedicação pode fazer com que cuidadores deixem de lado suas próprias necessidades e relações pessoais.
Interessada pela área desde o período de estágio em um hospital, a psicóloga considera fundamental ampliar a presença desses profissionais nas unidades de saúde. A atuação contribui para compreender as necessidades emocionais de pacientes e familiares, favorecendo uma assistência que considere não apenas a doença, mas a pessoa em sua integralidade.
“É necessário dar apoio à família, não só ao paciente”, ressalta Carolina. Durante as conversas com acompanhantes, a psicóloga procura compreender como eles estão lidando com a situação e oferece espaço para que expressem cansaço, angústias e dificuldades. “O objetivo é reconhecer que quem cuida também precisa de acolhimento”, finaliza.
