domingo, abril 12

Desde o século XIX, espaço histórico desafia leitores e gestores públicos de Campos

Fotos: Josh

A Biblioteca Municipal de Campos dos Goytacazes possui uma longa história. Entre 1871 e 1872, sua criação foi concretizada por iniciativa da Câmara Municipal, apoiada por intelectuais e pessoas influentes da época. Em 1879, formou-se um acervo significativo. Em 1903, a instituição ganhou sede própria na Praça do Santíssimo Salvador. Em 1973, foi transferida para o Palácio da Cultura, logo após sua inauguração. Ali permaneceu até 2014, quando o prédio foi fechado para reforma — obra concluída apenas no fim de 2025. Após um hiato de 11 anos, em 2026, a Biblioteca Municipal Nilo Peçanha e o Palácio da Cultura são desafiados a atrair antigos e novos leitores e frequentadores, além de valorizar o patrimônio histórico.

Desde 1973, diferentes gerações tiveram como referência o Palácio da Cultura como sede da Biblioteca Municipal. No entanto, é preciso pontuar diferentes momentos da trajetória anterior desse acervo. A historiadora e diretora do Museu Histórico de Campos, Graziela Escocard, destaca pontos relevantes, como a relação entre a Biblioteca Municipal e o Solar do Visconde de Araruama, no início do século XX, a partir de uma reconfiguração dos usos daquele espaço:

Graziela Escocard

“Essa adaptação foi formalizada em 1903, quando o então presidente da Câmara, Dr. Benedito Gonçalves Pereira Nunes, contratou o engenheiro-arquiteto Miguel Clement para realizar as intervenções necessárias no edifício. A Biblioteca foi inaugurada em 21 de abril de 1903, já com um acervo ampliado por doações, aquisições e coleções de periódicos. Em 1927, Ana de Castro Belisário Soares de Souza, conhecida como Anita Peçanha, ofereceu parte da biblioteca pessoal de seu falecido esposo, o ex-presidente Nilo Peçanha, reforçando o prestígio e a relevância da instituição. Em 30 de março de 1935, durante a gestão do prefeito Dr. Francisco da Costa Nunes, a Biblioteca foi reinaugurada em uma nova fase, passando a ocupar o segundo pavimento do Solar do Visconde de Araruama, com melhores condições para abrigar seu acervo e atender ao público”, cita a pesquisadora.

Graziela acrescenta: “A incorporação do acervo de Nilo Peçanha é extremamente significativa, porque elevou o prestígio e enriqueceu o conjunto com obras de alto valor intelectual e político, vinculando diretamente a instituição a uma das maiores figuras da história republicana brasileira. O nome ‘Biblioteca Municipal Nilo Peçanha’ é uma denominação posterior, atribuída em homenagem ao ilustre campista.”

O mobiliário e mais de 800 livros raros que pertenceram ao ex-presidente Nilo Peçanha estão atualmente abrigados e catalogados no Museu Histórico. Antes, chegaram a permanecer por décadas no Palácio da Cultura e também no Museu Olavo Cardoso, espaço que se encontra fechado devido ao abandono do prédio por parte do poder público municipal.

“Esses acervos não são apenas conjuntos de livros ou peças, mas verdadeiros patrimônios coletivos, que sustentam a pesquisa, a educação e o reconhecimento da nossa história. Sua preservação e valorização são indispensáveis para garantir que as futuras gerações tenham acesso às suas origens e possam construir, de forma consciente, o seu lugar na sociedade”, afirma Graziela.

A Biblioteca voltou ao Palácio da Cultura

Retomada do espaço público
Com a reabertura do Palácio da Cultura, uma nova Biblioteca Municipal foi apresentada ao público. Cerca de três mil livros estão disponíveis para leitura e empréstimo. Esse volume é, no mínimo, dez vezes menor do que o acervo existente até 2014. Desde o fechamento para obras, milhares de livros foram guardados no Teatro Municipal Trianon. O J3News publicou, em 2018, reportagem sobre o risco de parte do acervo se perder devido à falta de conservação e manutenção adequadas.

Em nota, a Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima informou que o patrimônio bibliográfico do município vem sendo preservado e organizado. “Parte do acervo encontra-se atualmente em processo contínuo de catalogação, triagem e reorganização técnica, visando garantir melhores condições de acesso, conservação e consulta pública. Quanto ao material que, em gestões anteriores, foi temporariamente armazenado em outros espaços, esclarecemos que o acervo existente está sendo avaliado por equipe técnica, com critérios de conservação e relevância, para definição de sua plena reintegração ao sistema municipal de bibliotecas. O objetivo da atual gestão é assegurar que todo o material apto esteja disponível para pesquisa e uso da população, dentro de padrões adequados”, afirma.

A FCJOL informou que pretende avançar na modernização dos serviços da biblioteca. Em parceria com o Centro de Informação e Dados de Campos (Cidac), será implantado um sistema de cadastro de visitantes, além de ferramentas voltadas ao atendimento de pesquisadores, bem como a criação de um sistema de gestão da biblioteca. A iniciativa permitirá maior organização do acervo, controle do fluxo de usuários e qualificação dos serviços prestados à população. “Sobre o funcionamento no Palácio da Cultura, destacamos que o espaço foi recentemente reaberto ao público e já vem apresentando uma retomada gradual e positiva da frequência de visitantes”, diz a nota.

Acervo do Museu Histórico de Campos

Para a coordenadora do Palácio da Cultura, Nana Rangel, a biblioteca representa um dos símbolos mais significativos do equipamento público. “Embora sua origem esteja na praça, foi aqui que ela alcançou um de seus momentos mais marcantes. Ao longo dos últimos anos, houve um enfraquecimento não apenas do hábito de frequentar a biblioteca, mas também da própria visibilidade do palácio. Torna-se fundamental valorizar e fortalecer esse espaço. Em tempos em que muitos acreditam que ferramentas digitais substituem tudo, é preciso lembrar: a biblioteca segue sendo essencial e decisiva na formação de novos leitores”, afirma.

Nana Rangel

Memórias literárias
Durante a reportagem, a pedagoga Maria Inês Nascimento foi a única leitora presente na nova Biblioteca Municipal. “Sempre que tenho oportunidade, aproveito o espaço para leitura. À época de estudante, realizava pesquisas escolares em jornais disponíveis na biblioteca. Houve redução do acervo. É essencial ampliar a oferta de livros”, diz.

Maria Inês Nascimento

Por mais de 40 anos, diferentes gerações viveram atividades literárias, eventos de artes, música, teatro e festivais. A professora Ela Moura guarda lembranças afetivas do Palácio da Cultura. “Entre as memórias mais marcantes está a participação, ainda jovem, em um concurso de música realizado no local, no qual conquistei o segundo lugar ao lado de amigas. Já na fase adulta, recordo eventos culturais como cafés literários — com destaque para a presença de Adélia Prado — e apresentações musicais no jardim, experiências que reforçaram minha ligação com o espaço ao longo da vida.”

A professora Ana Paula Motta também relembra suas experiências. “Eu frequentava o Palácio da Cultura principalmente para estudar com minhas colegas. É triste saber que parte do acervo da Biblioteca Municipal se perdeu.”

Outra professora, Ana Leiva Gusmão, também guarda momentos marcantes no local:

“Enquanto estudante e por ser moradora do interior, recorria à Biblioteca Municipal para fazer pesquisas. Foi um espaço extremamente democrático para o conhecimento, além de encantador, porque ali havia um mundo de possibilidades ao alcance das nossas mãos, nas prateleiras. Vejo as bibliotecas como guardiãs da memória da nossa história”, conclui.

Share.
Leave A Reply

Exit mobile version