César Queiroz construiu carreira marcada por ética, superação e reconhecimento profissional

Campos na semana passada perdeu o contabilista César Queiroz. Nascido em 1948, em Murundu, no Norte do município, ele foi protagonista de um roteiro de vida escrito mais com números do que com palavras. O menino que aos cinco anos vendia frutas e doces em uma estação de trem em Morro do Coco, já fazia contas com precisão. A infância na roça foi de sacrifício e penúria. Alfabetizado pela avó, Luíza, César fez suas primeiras leituras noturnas – tempo que tinha para estudar – sob à luz de um dos poucos postes da iluminação pública, próximo onde vivia. A residência dos seus pais não tinha energia elétrica. Deixou Murundu e se matriculou no Colégio Agrícola de Campos, e a partir daí a distância para uma vida de vitórias foi se encurtando.
Antes de se formar em contabilidade pela Escola Comercial de Campos, que funcionava na Avenida Alberto Torres, César trabalhou em muitos lugares como na Cooperativa dos Produtores de Açúcar do Estado do Rio, a extinta Cooperflu. Lá conheceu o presidente da entidade, Evaldo Inojosa, um homem rico que pilotava o próprio avião. Percebeu que também poderia decolar e fez seu plano de voo na contabilidade.
O menino que vendia frutas e doces na estação ferroviária, e que dava troco aos fregueses sem margem de erro, estava fadado a ser o mago dos números. No tempo dos contos de réis, e dos tostões – moedas da época –, ele nunca imaginou que iria mexer com tanto dinheiro.
César Queiroz, ao saber que esse tanto dinheiro era dos outros e não dele, redobrou a responsabilidade e, ao montar seu escritório, estabeleceu premissas onde exatidão e a lisura estavam sempre no topo. Ao longo de 60 anos à frente de uma das maiores bancas de contabilidade do Estado do Rio, fundada por ele, César Queiroz atravessou muitos planos econômicos e mudanças fiscais, o que exigia dele uma constante atualização.
O que era contos de réis ou tostão, passou a ser cruzeiro, cruzeiro novo, cruzado e “real”. Não interessava o nome da moeda e sim o valor. Com isso ele foi conquistando grandes clientes.
Um dos mais importantes, ainda no começo foi Marcelino Martins dos Santos, um homem poderoso, plantador e exportador de café. Para o senhor Marcelino ele vendia frutas e dava o troco exato. Nunca imaginou que um dia, o homem rico, de terno de linho, daria à ele a responsabilidade de organizar sua vida financeira. O filho de um açougueiro também teve como cliente o Grupo Barcelos, controlador da rede de supermercados Superbom, entre outros.
O nome César Queiroz continuará vivo, com a renomada banca de contabilidade nas mãos da companheira de uma vida toda, a esposa Margareth e as filhas Ivana e Isabela.
“Hoje vivi a dor da despedida do meu pai, mas também a certeza do privilégio que foi ser filha dele. A saudade é grande, mas ela vem acompanhada de orgulho e gratidão. Gratidão por ter tido um excelente pai, que amou a família, honrou sua história e deixou um legado de respeito e humanidade”, Isabela Queiroz.
Depoimentos
O presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Campos (CDJ) e diretor geral do J3 News, Fábio Paes, lamentou a perda. “Campos perde uma grande referência, um profissional raro que conseguia com maestria cumprir uma missão difícil nesse país que é o exercício fiscal. Era também um grande parceiro nos eventos da nossa empresa desde o primeiro momento”- disse Paes.
César Vesseba, diretor da CDL, falou do amigo. “César era uma pessoa que a gente só ouvia falar bem, tanto é que hoje (dia do enterro) podemos ver a quantidade de gente fazendo essa homenagem para ele”.
“O César deixou um legado para Campos, um exemplo de honestidade, competência, um líder de classe que sempre defendeu o desenvolvimento, os bons princípios”, afirmou Mauro Silva, secretário de Desenvolvimento Econômico de Campos .
Maurício Cabral, presidente da Associação Comercial e Industrial de Campos (Acic) lembrou da passagem de César Queiroz pela instituição. “Nós da ACIC recebemos com muita tristeza a informação da morte do César, que já foi nosso vice-presidente e saiu agora como diretor do nosso deliberativo. Deixou um grande legado para a nossa instituição e para a sociedade civil como um todo”.

