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Tiago Abud – Articulista e Defensor Público – Todo botequim é como uma catedral. De portas abertas, entra todo tipo de gente. Do sábio ao idiota. Na mesa ao lado de Bonifácio, um idiota, com anel de doutor e tudo, se regozijava da invasão da Venezuela por Donald Trump.
— Maduro é um ditador. Traficante internacional de drogas, disse o ébrio.
Bonifácio, sentado na mesa ao lado, prontamente desenha:
— Imagine você na sua casa. Quer comprar um carro. Sua esposa e seus filhos, ao contrário, desejam viajar com o dinheiro economizado para o investimento. No fim das contas, sua opinião, embora isolada, prevalece e sai a compra do automóvel. Você não foi democrático. Apesar disso, pode o seu vizinho, que só quer fornicar com sua esposa, invadir a sua casa, usando a justificativa da falta de democracia?
— Claro que não, retruca o doutor.
—Ora bolas, mas qual a razão de ser diferente com a Venezuela?
— Maduro é traficante!
—Nem Donald Trump sustenta mais isso. Será que Trump está sendo democrático, quando diz que vai interferir na Venezuela enquanto quiser, que só os EUA vão comprar o petróleo de lá e que o dinheiro pago será utilizado para comprar apenas produtos americanos? Maduro é um traste. Foi abraçado pela esquerda, durante um tempo, mesmo com seus erros. Mas nada justifica o atentado à soberania do povo venezuelano. Até quando vocês vão ficar batendo continência para pneu?
A cerveja não desceu mais redonda. O doutor ficou mudo e pediu a conta. Não havia motivo para saideira. Quando chegou à casa, sua mulher estava fazendo algumas tarefas domésticas e estranhou a chegada precoce do marido. O bar, naquele dia, além de uma catedral, tinha virado uma escola. Para a aula do professor Bonifácio.
Mas o dia ainda não tinha acabado. Deu tempo de ver o Globo de Ouro e assistir à dupla vitória brasileira. Como patriota, deveria comemorar. Mas não. Preferiu xingar a Lei Rouanet. Não sabia ele, como aliás costumeiramente não sabe de nada, muito embora tenha a capacidade de ter certeza sobre todas as coisas que ficam debaixo do sol, que os vencedores não receberam um centavo por intermédio da lei. Dos quase 30 milhões captados, R$ 7,5 milhões vieram do governo Federal, através de incentivos do Fundo Setorial do Audiovisual da Ancine para o audiovisual brasileiro.O resto da iniciativa privada e de governos estrangeiros. Viva a cultura brasileira, que não perdeu a capacidade de constranger. Assim como Bonifácio.
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