Eduardo Bulhões, da UFF, alerta para temperaturas elevadas, períodos mais secos, queimadas, impactos na saúde e chuvas intensas nos próximos meses

O geógrafo marinho Eduardo Bulhões, da Universidade Federal Fluminense (UFF), alerta para os possíveis impactos do fenômeno El Niño nos próximos meses e defende medidas preventivas por parte dos gestores públicos e da população. Segundo o pesquisador, a elevação das temperaturas e a ocorrência de eventos climáticos extremos exigem planejamento para reduzir riscos relacionados a períodos mais secos, queimadas, problemas de saúde, redução da produtividade agrícola e chuvas intensas em diferentes regiões do país. Bulhões explica ainda como o fenômeno se manifesta e quais efeitos podem ser esperados no Brasil.
O que podemos destacar sobre El Niño e mudanças climáticas neste período e nos próximos meses?
Realmente, a gente já viu uma realidade em que as mudanças climáticas vêm impactando as populações, sobretudo as mais vulneráveis. Mas não só isso: também algumas atividades econômicas, principalmente aquelas vinculadas à agropecuária, são impactadas por essas mudanças climáticas, que se traduzem, na prática, pelo aumento da temperatura no planeta e pelo aumento dos eventos extremos, como chuvas muito fortes, secas mais prolongadas, ondas de calor e queimadas. Tudo isso tem a ver com o aquecimento do planeta.
No entanto, quando a gente fala de El Niño ou La Niña, que são lados opostos de um mesmo fenômeno, a gente já não está falando necessariamente de mudanças climáticas. Estamos falando de anomalias climáticas, que já ocorrem há muitas e muitas décadas e começaram a ser efetivamente acompanhadas a partir de 1950. Então, desde 1950, a gente acompanha os eventos de El Niño, sua duração, intensidade e força. E esse que se configura agora para 2026 e 2027 tem sido chamado de evento de Super El Niño.
Como explicar objetivamente o que é o El Niño e seus efeitos?
Para ser um pouco claro e simples, o El Niño é um aquecimento anômalo da água do mar no Oceano Pacífico. Como o oceano e o ar, a atmosfera, estão totalmente interligados, esse aquecimento anômalo da superfície da água do oceano faz com que haja mudanças nos padrões de circulação das massas de ar, nos padrões de circulação das chuvas e dos ventos e nas áreas onde a gente tem variações na pressão atmosférica, mais para alta ou mais para baixa pressão.
E, como o Oceano Pacífico é um oceano supergrande, uma massa de água que ocupa metade do planeta, a gente tem impactos que chamamos de teleconexões, que vão aparecer no mundo inteiro. Então, tudo o que acontece ali no Pacífico, esse aumento da temperatura da água que acontece no Pacífico, ao qual a gente chama de El Niño, impacta todo o planeta.
O El Niño é dito, digamos, fraco quando esse aumento fica entre meio grau e um grau. Quando esse aumento fica entre um grau e um grau e meio Celsius, a gente chama de um evento de El Niño moderado. Quando esse evento é acima de um grau e meio, a gente chama de El Niño forte. Quando esse evento supera dois graus de temperatura, a gente tem um El Niño, um Super El Niño, digamos assim.
Há previsão de duração desse fenômeno?
A gente não consegue prever exatamente quanto tempo ele vai durar, mas hoje já temos informação de que as águas no Pacífico ultrapassaram 1,8 grau.
Para além dos números, o que isso significa aqui no Brasil? A gente tem dois padrões muito claros para o Brasil durante eventos de El Niño. Seca na região Norte e Nordeste do país. Então, chove bem menos do que é esperado, e isso reduz drasticamente o volume dos rios na Amazônia, por exemplo. Reduz também, aumenta o período de seca ou faz com que um período de seca se prolongue tanto que emende com outro período de seca, tornando as áreas secas lá do interior do Nordeste bem mais secas do que o usual.
Quando a gente tem secas prolongadas que atingem o Cerrado, temos maior chance de ocorrência de queimadas e incêndios. A gente viu isso uns anos atrás na Amazônia. Então, esses são os impactos claros no Norte e Nordeste do Brasil.
No Centro-Sul e, sobretudo, mais ao Sul do país, a gente tem um aumento no volume de chuvas. Então, podemos esperar maiores acumulados de chuva naquela região do Rio Grande do Sul, no interior do Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Então, isso já é esperado.
Para além disso, a gente tem sinais um pouco menos precisos, mas que começam a se repetir aqui no Sudeste do Brasil, que vai ficar mais quente. Teoricamente, as frentes frias ficam mais bloqueadas ao sul da América do Sul. E, aqui no Sudeste, a gente tem temperaturas mais elevadas e períodos mais secos.
O que pode ser destacado em relação ao El Niño nos próximos meses?
O que pode chamar a atenção, o que pode gerar, como eu já citei, é um tempo mais seco. Então, é possível que, com o tempo mais seco, haja problemas de saúde pública vinculados à respiração, síndromes respiratórias e doenças vinculadas ao aparelho respiratório. E também a possibilidade de queimadas e uma menor produtividade agrícola, o que gera, por sua vez, impactos econômicos e sociais em uma população que depende diretamente disso. Então, é isso que a gente espera.
O que pode falar sobre planos de contingências por parte dos gestores públicos?
Como políticas públicas de contingência frente a um clima mais seco, uma temporada mais seca, existem várias medidas. Para quem produz na agropecuária, eu acho que incentivos fiscais, eventualmente auxílio para algumas famílias e medidas que consigam amenizar esse impacto econômico são importantes. O sujeito estaria preparado para vender tanto e vai vender menos, porque a produtividade reduz com o tempo mais seco.
Áreas de queimada precisam ser monitoradas. No geral, a gente não tem muita capacidade de lidar com as queimadas, então não é o tipo de desastre com o qual lidamos no cotidiano. A gente é pouco preparado para isso. E aí a questão é realmente proteger e criar sistemas de monitoramento de queimadas e proteger, eventualmente, as populações que estejam expostas a essas áreas onde haja queimadas.
Quais efeitos mais relevantes podem impactar a população?
A gente pode ter um aumento também no consumo de água por causa do tempo mais seco e uma diminuição nos reservatórios, o que geraria uma elevação do preço da energia elétrica. Então, também medidas que possam, de forma fiscal, compensar isso seriam importantes.
Bom, e nessas áreas onde há mais chuva, ao Sul do país, que não é o nosso caso específico, realmente aquilo que a gente viu no Rio Grande do Sul em 2024, que estava vinculado ao último El Niño que nós tivemos, é o que a gente pode esperar.
Ou seja, a gente pode esperar outro cenário de chuvas extremas. Não estou dizendo que elas vão acontecer, mas acho que a gente tem que estar preparado para que isso aconteça novamente, porque aquelas coisas que a gente antigamente achava que seriam isoladas hoje não são mais.

