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    Esperança e autoestima na periferia de Campos

    20 de julho de 2026Nenhum comentário8 Mins Read
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    No bairro Tapera III, voluntários atuam com educação e artes para crianças em centro cultural

    (Foto: Silvana Rust)

    Cristiele Lemos é coordenadora-geral do Centro Cultural Bruno Black, no bairro Tapera III, em Campos dos Goytacazes. Na comunidade da periferia, ela e um grupo de amigos voluntários decidiram fazer algo para melhorar a vida dos moradores, sobretudo das crianças. No espaço cedido, acontecem aulas de reforço escolar, letramento racial, alfabetização, cursos de computação, dança e artesanato, entre outras atividades.

    O Centro Cultural Bruno Black presta homenagem ao ativista do movimento negro e cultural carioca. Cristiele Lemos é escritora, com alguns livros independentes publicados, além de ativista cultural em Campos e região. Ela conta como surgiu a ideia de criar, na Tapera III, um espaço que se propõe a educar crianças, tirá-las das ruas e combater a cooptação pelo tráfico de drogas e a violência na periferia da cidade.

    Como surgiu o Centro Cultural?

    Ele surgiu da minha própria história. Eu cresci em uma comunidade e não queria que o ponto de partida de alguém definisse o futuro dessa pessoa. Quando tive a oportunidade, eu já vinha de outro coletivo que criei em outro distrito e trouxe essa ideia comigo. Cheguei aqui, fiz um mapeamento, verifiquei que não havia opções para as crianças e pensei: “Eu preciso fazer alguma coisa”. Surgiu dessa forma.

    De que maneira vocês têm trabalhado na ampliação da estrutura?

    Isso aconteceu por duas situações. Esse imóvel foi cedido para nós porque, quando conversamos com o proprietário, ele não estava sendo utilizado. A princípio, ele pensou em emprestar e, depois, disse: “Já que é para o bem da comunidade e das crianças, vou ceder para vocês”. Só que havia uma questão: não existe documentação desse espaço. Não é apenas o imóvel; toda esta área ainda não possui documentação regularizada. Existem várias ruas atrás daqui, e elas também não são documentadas. Então, essa ainda é uma questão a ser resolvida. O primeiro avanço veio por meio de um edital. Eu submeti o Centro Cultural ao edital e conseguimos esse recurso, mas ele não era suficiente. Muitas partes complementares da reforma também vieram de parceiros. Como eu falei, faltou tinta, e um parceiro do ramo de material de construção foi lá e doou. Foi assim que conseguimos avançar. E a gente planeja ampliar, porque precisamos de mais salas. Mas, em pouco mais de um ano, conseguimos construir tudo isso. Para nós, já é uma vitória enorme.

    Quantas crianças são assistidas e quantos voluntários participam do Centro Cultural?

    Hoje temos 65 crianças assistidas. Não é por falta de crianças na fila de espera, mas por falta de condições e de equipamentos. Ainda temos muitas deficiências em carteiras, mesas e cadeiras, tanto para as aulas de letramento quanto para o inglês que ofertamos. O espaço comporta até 100 crianças, mas não adianta ampliar para esse número se não temos equipamentos suficientes para atendê-las com qualidade. Precisamos, principalmente, de carteiras, mesas e cadeiras para as pessoas que vêm ler no local, porque isso aqui também é uma biblioteca pública. As crianças vêm fazer trabalhos e pesquisas escolares. A ideia também é incentivar essa transição da tela para o livro físico, oferecendo essa alternativa. Hoje temos em torno de 500 obras no acervo, mas ainda não conseguimos expor todos os livros.

    Quantas horas por dia vocês trabalham aqui?

    Devido à dificuldade relacionada ao voluntariado — porque todo voluntário também tem seu próprio trabalho e aqui não existe remuneração; é realmente vontade de ajudar o próximo —, a nossa programação depende da disponibilidade dessas pessoas. Atualmente, a terça-feira é o único dia em que temos atividades em dois turnos. Pela manhã acontece o letramento e, à tarde, também oferecemos letramento. Na segunda-feira trabalhamos com arte, das 14h às 16h, e depois seguimos com contação de histórias até por volta das 17h. Nas quintas e sextas-feiras ainda não temos programação fixa por falta de voluntários qualificados. Já aos sábados, o Centro funciona durante todo o dia. Começamos com aula de inglês e, em seguida, temos duas turmas de balé: uma infantil e outra para pré-adolescentes. No dia 6 de junho, inauguramos o projeto “Desabafo de Mãe”, um espaço de encontro para mulheres e mães, voltado para questões ligadas à maternidade. O projeto conta com acompanhamento e orientação de uma psicóloga, que desenvolverá todo o trabalho dentro desse eixo.

    Qual a importância de Bruno Black para o Centro Cultural?

    O Bruno Black é um cara muito bacana, que trabalha há dez anos com periferias, levando cultura para esses espaços. Quando o conheci, em 2022, ele foi a pessoa que me deu um norte. Eu sabia o que queria fazer, mas ainda não sabia como começar. Ele é do Rio de Janeiro, da comunidade Fumacê. Este ano, o Centro Cultural Bruno Black está patrocinando dois alunos que hoje já se tornaram voluntários, por meio da antologia que ele produz. Foi assim que começou nossa parceria. Essa antologia é muito importante para os alunos escritores, que já têm talento para a escrita, mas muitas vezes não possuem condições financeiras ou suporte familiar. Foi o pontapé inicial da minha carreira como escritora e instrutora. Eu já tinha um livro físico solo, mas ainda não era conhecida nem reconhecida nesse universo literário.

    Além da questão do apoio escolar, do letramento e da alfabetização, há interesse das crianças por literatura, arte e cultura?

    A gente sempre acredita que a criança talvez não vá se importar tanto com isso, que ela seja mais agitada e queira atividades mais movimentadas. Mas foi uma surpresa quando criamos, primeiro, a turma de arte, que hoje é uma das maiores que temos. Inclusive, precisamos limitar o número de participantes exatamente porque não temos equipamentos suficientes para atender todos que gostaríamos de receber. Mas elas se desenvolvem de uma forma incrível. A gente descobre talentos. Eu sempre digo que estamos formando artistas para o futuro de uma maneira inacreditável. Tenho um aluno que trabalha com massa e, quando você vê aquele menino com argila na mão, percebe que ele produz coisas impressionantes. Também temos crianças desenvolvendo pintura. Essas qualidades já existiam e só precisavam ser potencializadas.

    Que mensagem você gostaria de deixar para a comunidade, para a sociedade e para a cidade de Campos?

    Eu sempre falo e vou repetir: o lugar onde você começa não determina onde você vai chegar. Eu nasci na periferia, mas isso nunca foi uma limitação para mim. O Centro Cultural nasceu exatamente nesse contexto: mostrar a essas crianças, muitas vezes inseridas em situações financeiras muito difíceis, que isso não precisa ser um limite. O que é ofertado aqui eu não tive na minha infância. Então, com base naquilo de que senti falta e precisava, pensei: “Eu posso fazer essa diferença e trazer essa oportunidade para a comunidade onde estou inserida. A Tapera III vem da beira da linha, e eu também nasci na beira da linha. Existe uma identificação muito pessoal nisso tudo. A gente fala muito em gerar impacto, porque, se não gerar impacto, não existe significado para esse espaço existir. O Centro nasceu para gerar impactos reais. Começamos com crianças, depois ampliamos para adolescentes e firmamos parcerias com ONGs muito bacanas, que trouxeram qualificação profissional. Muitos alunos que participaram das qualificações no ano passado já estão trabalhando. Então, é isso que buscamos mostrar para eles: o sonho não termina nem é enterrado dentro da comunidade. A comunidade pode ser apenas o ponto de partida para chegar onde quiserem, desde que aproveitem as oportunidades oferecidas. E, sobre ajuda, eu sempre digo: qualquer pessoa pode colaborar. Às vezes chega uma criança com um pacote de suco e já conseguimos fazer dois litros. Não é preciso muito para ajudar um centro comunitário; basta vontade.

    Este é um dos bairros mais recentes de Campos. O que espera para a comunidade?

    Este é um bairro com mais de quatro mil moradores. Eu fiz esse mapeamento antes de iniciar o projeto, porque, antes de estruturar um espaço como este, você precisa entender a realidade local. Em 2024, quando realizamos esse levantamento — e o Centro iniciou oficialmente suas atividades em 29 de agosto de 2024 —, já existiam mais de quatro mil moradores aqui. Quando você multiplica isso pelo número de crianças por família, entende o tamanho da demanda e da necessidade de espaços como este. Sempre conversamos com eles: isso aqui não é o fim da vida deles. Eu digo aos alunos que não é porque os pais ainda estão aqui que eles necessariamente precisam permanecer limitados a esse espaço. Não significa negar o pertencimento — porque valorizar o lugar onde crescemos é importante —, mas compreender que ninguém precisa ficar preso a ele. A gente pode voar para muito longe. Basta deixar-se voar. A cultura serve em qualquer lugar, e é isso que promove transformação. É um espaço construído por pessoas que acreditam que cultura, educação e acolhimento podem transformar realidades.

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