.
Por Leonardo Barros

A família Moreira de Miracema formou três grandes treinadores para a história do futebol brasileiro. Zezé, Aymoré e Ayrton driblaram a implicância do pai sobre o esporte para conquistar o mundo. Depois das primeiras peladas nos campinhos da cidade do Noroeste Fluminense, o trio migrou para a capital Rio de Janeiro para jogar profissionalmente e, depois, brilhar na carreira de técnico.
No Brasil e no exterior, é difícil ter três irmãos com sucesso dentro do campo e no comando de equipes. Dois deles foram técnicos da Seleção Brasileira em Copas: Aymoré foi campeão no Mundial do Chile em 1962; já Zezé treinou a equipe na Copa de 1954 na Suíça. Sem a experiência de seleção, Ayrton se tornou referência no futebol mineiro.


Antes das conquistas e do reconhecimento, o início foi em Miracema. A família era proprietária da Fazenda Lagoa Preta, mas os irmãos residiam na Rua Marechal Floriano (rua direita), no Centro. O pai, Alfredo, era farmacêutico. Era totalmente contra o futebol, ao ponto de puxar as orelhas dos filhos quando fugiram para os campinhos.
A tentativa de afastá-los do futebol não funcionou. Foram enviados para o Rio para estudar e trabalhar, mas a convivência com um tio na capital alimentou ainda mais a vontade de jogar.
Até hoje, Miracema ainda guarda parte da memória dos irmãos. O Centro Cultural Melchíades Cardoso possui parte do acervo de Zezé. O Estádio da Associação Atlética Miracema recebeu o nome Estádio Irmãos Moreira em 1993.
O estrategista
Zezé era o mais velho dos irmãos, nascido em 1907. A oportunidade apareceu após ser descoberto em um campeonato de peladas em São Cristóvão. Deixou a carreira de farmacêutico de lado para ser campeão no futebol. Abriu as portas para os irmãos Aymoré e Ayrton. Defendeu o Flamengo; o Palestra Itália (Palmeiras); o Botafogo, entre outros.
Na década de 1940, iniciou a carreira de técnico. Ficou conhecido por ser estrategista e revolucionário, ao criar a marcação por zona e a formação 4-3-3, que existem até hoje. Porém, também foi chamado de retranqueiro. Foi campeão na maioria dos clubes por onde passou, como Botafogo, Fluminense, Nacional do Uruguai e São Paulo, entre outros.
Comandou a Seleção na conquista do Pan-Americano de 1952, no Chile, primeiro título internacional do Brasil. Em 1954, na Copa, perdeu a cabeça após a derrota para a Hungria e acertou uma chuteira na cabeça do ministro dos Esportes e técnico da Hungria Gustav Sebes. Uma cena até hoje lembrada. Zezé morreu em 1998, aos 90 anos, de problemas respiratórios causados por uma pneumonia.


O campeão do mundo
Nascido em 1912, ganhou o apelido de “Biscoito”, por causa da marca Aymoré, a mais conhecida na época. Começou como ponta, mas virou goleiro. A baixa estatura – na casa dos 1,70m – não foi problema para defender grandes clubes – America; Palestra Itália (Palmeiras); Botafogo; e Fluminense. Foi campeão paulista em 1934 pelo Palestra.
Porém, o ápice da carreira foi como treinador. Aymoré foi um técnico de sucesso por clubes, mas foi na Seleção que conquistou o principal título: campeão da Copa do Mundo de 1962. No Chile, o poder do diálogo com os jogadores transformou problemas em solução. Perdeu Pelé lesionado, mas lançou o campista Amarildo. Deu confiança aos veteranos, como Zagallo e Vavá. Enalteceu Garrincha e Nilton Santos. No final, Brasil campeão.
Aymoré morreu aos 86 anos, em 1998, após sofrer paradas respiratórias e cardíacas.


Ídolo em Minas
O mais jovem dos irmãos, Ayrton nasceu em 1917. Era zagueiro, fez carreira em clubes grandes, como o Atlético-MG, Botafogo e Náutico. É considerado um dos grandes treinadores da história do futebol mineiro, com passagens por Cruzeiro, Atlético-MG e América-MG. Diferente de Zezé e Aymoré, que eram criticados pelas retrancas, o mais novo ficou conhecido pelo futebol ofensivo.
É ídolo do Cruzeiro ao levar o clube à conquista da Taça Brasil de 1966, equivalente ao Campeonato Brasileiro. O adversário na final foi o Santos de Pelé. Nada que o esquadrão celeste tivesse medo. Foram duas vitórias: goleada de 6 a 2 e outras de 3 a 2. Título que marcou a carreira de craques como Tostão, Dirceu Lopes e Natal e fez o Cruzeiro ganhar projeção nacional, e passando a ser respeitado como um dos grandes do país.
Ayrton é o quarto técnico que mais trabalhou no Cruzeiro, com 206 jogos. Morreu aos 57 anos, em 1975, vítima de hemorragia cerebral.
Agradecimento especial ao museólogo Gustavo Tostes, do Centro Cultural Melchíades Cardoso
