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    Casos de estelionato sobem mais de 500% em dez anos

    10 de agosto de 2025Nenhum comentário8 Mins Read
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    Casos de estelionato sobem mais de 500% em dez anos
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    Dados sobre Campos revelam que registros saltaram de 521 para 3248 no período

    Vasto repertório|Mensagem enviada por WhatsApp é apenas um dos vários meios que os estelionatários usam para aplicar golpes em suas vítimas

    “O golpe tá aí”. A expressão viralizou dando nome ao hit musical do cantor Matheuzinho, em 2020, e desde então se popularizou em todo o país. A música fala sobre armadilhas enfrentadas em relacionamentos amorosos, mas ganhou a internet não só por isso. Tornou-se viral porque passou a ser usada cada vez mais em memes também sobre golpes na internet, que cresceram mais e mais nos últimos anos.

    Em 2020, por exemplo, ano em que a canção ganhou o país entoando o verso “O golpe tá aí, cai quem quer”, foram registrados 959 casos em Campos. Em 2025, o município já registrou 1.638 casos apenas entre os meses de janeiro e junho.

    O número é ainda mais alarmante quando a comparação é feita com a década passada. Em 2014, o município teve 521 registros em Campos. Já em 2024, o número de ocorrências chegou a 3.248. Um crescimento de 523%. Os dados foram levantados pela reportagem junto ao Instituto de Segurança Pública (ISP), vinculado à Secretaria de Estado de Segurança Pública.

    Pelo celular|Em mensagem de WhatsApp, golpistas se passam por parentes ou amigos das vítimas para pedir dinheiro

    Uma cronologia pegando os últimos cinco anos evidencia como os registros de estelionato não param de crescer em Campos. Em 2021, o ISP registrou 1.333 casos. Em 2022, foram 3.083. Já em 2023, o número subiu para 3.161. Em 2024, mais aumento, chegando a 3.248 ocorrências.

    São casos de diversos tipos, aplicados via e-mail, ligação, sites e redes sociais, com enredos cada vez mais ousados e elaborados. Links falsos em plataformas digitais, mensagens se passando por parentes e até por advogados, ofertas falsas de promoções e os mais variados tipos de golpes se aproveitando de dados da população, estão a cada momento mais presentes. O golpe está cada vez mais por aí, de fato. 

    Prisões recentes na cidade
    Em junho deste ano, um trio acusado de aplicar golpes em Campos foi preso por policiais civis da 134ª Delegacia de Polícia. Duas mulheres e um homem vinham agindo há alguns dias antes e voltaram a atuar no Shopping Estrada, com nova abordagem registrada também na Rodoviária Roberto Silveira.

    De acordo com a Polícia Civil, os estelionatários se passavam por representantes comerciais de uma plataforma de audiobooks e induziam as vítimas a realizar transferências via PIX para obter acesso ao conteúdo. No entanto, a plataforma era, na verdade, gratuita.

    Já no mês de abril, uma mulher foi presa investigada por participar de quadrilha que aplicava golpes na cidade. As investigações da época apontaram que a quadrilha de estelionatários aplicava golpes por meio da falsificação de documentos. Na residência, também foram encontrados e apreendidos dois carros – entre eles uma Mercedes -, joias, armas, munições, entre outros objetos. A mulher presa esbanjava vida de luxo nas redes sociais.

    Polícia em ação|Em 26 de abril, mulher foi presa no Parque Aurora; já em 19 de junho, trio foi detido na rodoviária do Centro

    O golpe no dia a dia da população
    A reportagem reuniu alguns relatos ocorridos em Campos nos últimos meses. São casos do dia a dia de pessoas comuns, que se veem cada vez mais sob o risco dos estelionatários. Alguns nem chegaram a ser registrados na Polícia Civil. Aposentado, Jorge Carlos Pedrosa, de 77 anos foi Vítima de estelionato em dezembro de 2024 por meio de um falso link do Mercado Livre.

    “Durante vários dias estive pesquisando na internet por um kit de ferramentas com parafusadeira. Vi vários produtos, com preços diferentes, mas nada que me chamasse atenção para a compra. Até que apareceu a propaganda se passando pelo Mercado Livre, com um anúncio. Me chamou atenção e o preço em conta me fez comprar. Não existiu a desconfiança, o falso anúncio era idêntico a qualquer um do mesmo site. Então inseri meu cartão de crédito e endereço para entrega. A desconfiança veio somente quando a data de entrega não foi cumprida. Chamei meu neto para olhar o porquê da compra não ter chegado e ele descobriu que era um golpe”, lembra.

    E acrescenta: “Não tinha chegado confirmação por e-mail, o link era parecido, mas tinha um detalhe diferente, e no extrato do banco estava com outro nome. A partir daí, cancelei meu cartão, fiz contato com o banco e informei o golpe. Mandei todas as informações comprovando e consegui cancelar a compra e recuperar o dinheiro. Ficou o aprendizado. Agora fico sempre mais atento, preço muito abaixo logo desconfio, e em qualquer outra dúvida já chamo meu neto para olhar”, conta o aposentado.

    Professora e servidora pública, Márcia Valéria Vianna passou por outro tipo de golpe há cerca de três meses, muito constante nos últimos anos. A mensagem se passando pela filha. “Recebi uma mensagem de um contato no WhatsApp, com a foto da minha filha, me pedindo para pagar um boleto. Ela estava no processo de compra e mudança de casa, achei que fosse real. Na correria do dia a dia, não conferi o número, não pensei em parar para confirmar se era ela. Acabei fazendo o pagamento. Fiz o boletim de ocorrência. Mas ficou apenas de aprendizado para a família toda. O dinheiro eu infelizmente não consegui recuperar”, comenta.

    Aposentado, Magno Ribeiro começou a receber ligações no mês passado, de um contato com DDD de Campos, se passando pelo INSS, afirmando que poderia perder o seu benefício:

    “Começaram a me ligar, dizendo que eu perderia o benefício por conta de alguma denúncia. Com as ligações seguidas, a gente acaba ficando nervoso. Mas, meu filho notou que o número não era de fato do INSS e conferiu que minha situação estava ok no app ‘Meu INSS’. Depois, minha esposa conseguiu falar com o INSS daqui e lá esclareceram que não tinha nada a ver com eles e orientaram a fazer boletim caso eu tivesse informado algum documento. Por sorte, não informei. Mas, a gente fica preocupado, porque se ligaram sabendo que eu tenho aposentadoria, é porque essas pessoas têm acesso a dados nossos. Fica a sensação de insegurança em tempos tão digitais”, relata.

    Delegada faz alertas à população
    A delegada titular da 134ª Delegacia de Polícia (Centro), Carla Tavares, avalia o cenário em que os casos de estelionato não param de crescer e destaca que o conhecimento da lei brasileira por parte dos criminosos tem feito com que o foco acabe migrando para esse tipo de crime: 

    Delegada Carla Tavares

    “O Brasil vive uma política de desencarceramento, então, nos delitos sem violência ou grave ameaça, os autores respondem, em regra, em liberdade. Salvo nos casos de organização criminosa”, explica. Ela acrescenta ainda que, por conta disso, os tipos de golpes diferentes não param de surgir. “Quando um golpe já está muito difundido e as vítimas em potencial são alertadas, eles inventam uma nova modalidade”, diz. 

    Ela orienta que sempre desconfiar do que parece ser uma oportunidade muito atrativa é o melhor caminho para evitar ser a próxima vítima. “Muitas pessoas caem nos golpes porque se iludem na possibilidade de um ganho fácil. A orientação é sempre desconfiar quando a vantagem oferecida for muito grande ou os valores estiverem muito abaixo do mercado. Tudo isso é indicativo de golpe”, finaliza.

    Mariana Lontra

    Golpe do falso advogado e LGPD
    Presidente da OAB Campos e articulista do J3News, a advogada Mariana Lontra Costa publicou um artigo em abril deste ano, na versão impressa do jornal, alertando sobre o golpe do falso advogado.

    “Esses criminosos utilizam informações públicas de processos judiciais para enganar vítimas, solicitando pagamentos indevidos sob falsas alegações. Os estelionatários acessam dados de processos disponíveis nos sites dos Tribunais de Justiça, obtendo informações detalhadas sobre ações em andamento, valores e dados pessoais. Com essas informações, entram em contato com as vítimas, geralmente por meio de aplicativos como o WhatsApp, utilizando nomes e logotipos de escritórios de advocacia legítimos para conferir credibilidade à abordagem”, destacou. 

    O caso é mais um que chama atenção para a eficácia de fato da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). “Os criminosos estão cada vez mais sofisticados em obter informações pessoais, muitas vezes explorando fontes públicas e privadas. Os dados pessoais podem ser expostos por meio de vazamentos em bases de dados de empresas ou órgãos públicos, informações compartilhadas nas redes sociais também podem ser usadas para construir perfis detalhados das vítimas”, alerta. 

    E finaliza: “A LGPD visa proteger os dados pessoais dos cidadãos, mas sua eficácia depende da implementação e fiscalização adequadas. Lamentavelmente, muitas empresas não cumprem os protocolos de segurança. O vazamento de dados ainda ocorre devido a falhas de segurança ou práticas inadequadas. A colaboração entre autoridades e empresas é fundamental para combater esses crimes de forma eficaz e informar à população sobre os riscos e como se proteger é crucial para reduzir a eficácia desses golpes”, declara Mariana Lontra.

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