Especialista da UENF alerta para o aumento das ilhas de calor e defende planejamento de longo prazo para plantio e manejo de árvores

Dezenas de maritacas perderam um dos locais onde costumavam se abrigar na Pelinca, em Campos dos Goytacazes. A maior parte da árvore castanheira que servia de casa para as aves e ajudava a amenizar a temperatura de quem passava pela Rua Manoel Teodoro foi cortada na última quinta-feira (24).
Quem acompanha de perto a presença da árvore é o arquiteto Bruno Leite: “Eu passo diariamente embaixo daquela árvore por morar perto e percebia que a árvore ajudava a diminuir a temperatura do entorno. Sobrou um restinho de árvore e nenhuma maritaca”, afirma.
A Prefeitura de Campos, através da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas), informou que o trabalho teve como finalidade a poda de afastamento da rede elétrica, bem como, poda de levantamento dos galhos. “Visando garantir o afastamento adequado da vegetação em relação à rede e melhorar a circulação e a segurança no local. Não houve corte/supressão da árvore”, afirmou em nota.
A retirada chamou a atenção de moradores da região e reacendeu a discussão sobre a arborização urbana.
Ausência de Plano Municipal de Arborização
O geógrafo, professor associado e chefe do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico do Centro de Ciências do Homem da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), Marcos Pedlowski, criticou a inexistência de um Plano Municipal de Arborização em Campos, o que, segundo ele, dificulta um planejamento de longo prazo. “Deveria definir onde plantar, quais espécies utilizar, como realizar o manejo, e como ampliar a quantidade e, sobretudo, a diversidade das árvores”, sugeriu.
Ainda segundo Pedlowski, uma cidade pouco arborizada é uma cidade mais vulnerável aos efeitos da crise climática. “A consequência mais evidente é o aumento das temperaturas nas áreas urbanizadas, especialmente porque o concreto, o asfalto e outras superfícies impermeabilizadas absorvem e acumulam calor. A ausência de árvores contribui para a intensificação das chamadas ilhas de calor urbanas e reduz o conforto térmico da população”, afirmou.
Mas os problemas vão ainda além da temperatura. Pedlowski recordou que arborização presta diversos serviços ambientais. “As árvores ajudam a filtrar parte dos poluentes atmosféricos, especialmente àqueles associados à circulação de veículos, além de contribuírem para a retenção de partículas e para a melhoria das condições do ar. Elas também podem funcionar como elementos de atenuação da poluição sonora, especialmente quando implantadas de maneira planejada, formando barreiras vegetais entre vias de tráfego intenso e áreas residenciais”, disse.
Para Bruno, a retirada de árvores não deve ser analisada apenas como uma mudança na paisagem urbana e também afirmou que a situação não era isolada. “Como arquiteto, percebo que essa política de cortar árvores é uma coisa muito maléfica para a cidade, que além de quente ainda carece de sombras. Em um rápido passeio pela região, o cidadão vê a quantidade de árvores cortadas e raízes mortas, sempre pelo poder público, o que é revoltante”, se indigna.
O que diz a Prefeitura
Em nota, administração municipal informou que as intervenções de poda ou supressão são realizadas após avaliação técnica por profissional habilitado, considerando as condições fitossanitárias e estruturais das árvores e possíveis interferências com a infraestrutura urbana. “Nos casos de supressão, o local é posteriormente avaliado para verificar a possibilidade de reposição da árvore no mesmo endereço ou em área próxima. Sempre que tecnicamente possível, o município busca realizar o plantio de um número de mudas superior ao de indivíduos suprimidos”, disse.
Sobre o Plano de Arborização, a Semmas afirmou, ainda, que Campos possui legislação específica com diretrizes para proteção, manejo, plantio e expansão da arborização urbana. “Atualmente, a Secretaria trabalha no desenvolvimento do Plano de Arborização Urbana, que deverá contribuir para o diagnóstico e planejamento das ações no município”.
