segunda-feira, setembro 28

Da cozinha no quilombo com a avó ao sonho de abrir seu próprio restaurante em Campos

Foto: J3News

Ela deu os primeiros passos na cozinha no colo da avó, em um fogão de lenha no Quilombo de Dores de Macabu, em Campos. Andrea Márcia de Morais da Silva venceu o Reality culinário de Fábio Abud, na TV J3News e sua vida mudou do dia para noite. Suas redes sociais quase solitárias passaram a bombar e ela agora se divide em entrevistas como essa. Mas a receita não é um ingrediente de sorte nesta história. Ela estudou por dois anos e se formou Chef de Cozinha. Sonha em montar seu próprio restaurante, onde quase tudo é feito em fogão de lenha.

Andrea diz que tudo é por conta “da comida de vó” e ela, que já tem quatro netas, revela seu lado de Personal Chef. Enquanto ela não abre sua casa, quer dizer, o seu restaurante, ela vai na casa das pessoas para preparar o almoço, jantar ou ceia.

Até o final do século passado a cozinha tradicionalmente era lugar de mulher. Hoje, mais homens entraram na cozinha com patente de ‘Chef’. Como você vê essa questão? 
A gente entende toda a história envolvendo os homens na cozinha. E a cozinha é lugar de homem e de mulher. Uma coisa engraçada: meu marido cozinha comigo, trabalha comigo e tecnicamente é meu ajudante de cozinha. Em suma, cozinhamos juntos assim como vivemos. Me sinto mesmo uma cozinheira de mão cheia, porém fiz curso e agora sou Chef. Mas no fundo eu me defino como cozinheira, embora, como disse, entrando no ritmo atual da gastronomia que passou a ser uma ciência, então, sou Chef. Ao mesmo tempo em que assumo isso, sempre ressalto minha origem, de menina que via a avó cozinhar com fogão de lenha comigo no colo. Isso é uma raiz que ninguém me arranca. Então me sinto bem e feliz de qualquer maneira. Acho interessante essa alquimia culinária, com pratos ganhando desenhos e todas essas coisas reunidas. É uma gastronomia nova e eu fui estudar para transformar minha arte intuitiva em uma coisa mais profissional e entrar no mercado pela porta da frente. Resumindo para você, a cozinha é o meu lugar.

Como foi a história de entrar no reality do Abud? 
Eu estava fazendo curso de gastronomia e meu professor me incentivou depois da minha formatura, pois ele havia sido jurado em edições anteriores. Me inscrevi com um pouco de insegurança, afinal essa coisa de televisão, coisas sofisticadas, tudo era um mundo muito novo aos meus olhos. Mas sem eu perceber, estava pronta para o desafio e, aos poucos, o foco aumentou. Hoje, após o resultado que não esperava, vejo que me tornei uma profissional, embora com muita coisa ainda para aprender. Mas o concurso foi maravilhoso, tudo profissional. Me senti ‘a Chef’ e estou muito feliz. Foi tudo maravilhoso e quero agradecer ao meu mentor, o professor Rômulo Bernardo que me incentivou, ao Fábio Abud e o J3News. Posso afirmar que de uma hora para outra minha vida mudou e fiquei famosinha de um dia para o outro e eu nem percebi porque sou novata nessa coisa de rede social, confesso.

Com essa visibilidade toda, como é que está a sua rede social?
Explodindo. Como te disse, de um dia para o outro tudo aconteceu. Como dizem os mais novos, minhas redes sociais estão ‘bombando’ depois do Reality. E eu não consigo responder tudo. Aos poucos estou aprendendo e sabendo que elas são necessárias para eu continuar crescendo. Estou adorando ser seguida, ter seguidores, graças ao prestígio que o Reality me deu. Um mundo muito novo que ainda estou, digamos assim, degustando e saboreando. 

Está legal? Conta aí 
Isso é muito bom. É o fato de seu trabalho ter sido reconhecido. E eu sei bem que essa visibilidade vai me ajudar muito profissionalmente, me fazer crescer. Eu acho tudo isso muito demais, mas não quero cair naquela chamada receita do sucesso. Eu quero influenciar pessoas com a minha arte, com a minha comida. Pés firmes na cozinha e tentando responder todas as mensagens que recebo.

Andréa, com essa chancela do prêmio, vai dar mais para ganhar dinheiro fazendo comida?
Tem que dar né? Essa é minha vocação, minha arte, o trabalho de uma vida toda. Se a comida dá dinheiro eu posso viver disso. Mas não é só dinheiro. É o prazer de cozinhar e servir uma comida boa, um prato elegante, uma comida de verdade. Então é claro que esse prêmio me alavanca e vai me permitir dar mais um passo, quem sabe um escritório anexo a cozinha. Não posso perder essa oportunidade de ganhar dinheiro fazendo comida de Vó.

E o que é ‘comida de vó’? 
Comida de vó é feita com amor, com toda dedicação do mundo. Você começa e não tem fim para terminar. É muito carinho, muito amor, muita dedicação. Carinho, amor e dedicação são temperos que nos dias de hoje não se percebe em qualquer receita.

Na última etapa do Reality, você serviu qual prato? 
Foi uma ceia de Natal, com uma salada de grão de bico com várias especiarias. Azeitonas, cebola, tomate cereja e um bacalhau. Alho poró, um alho crocante, azeite e acidez do limão. Maravilhoso. E fiz um salpicão. Na verdade, fiz duas receitas buscando deixar tudo mais leve e saboroso e acho que acertei a tal da mão cheia, ao misturar com a maionese e as frutas tropicais, as amêndoas. E foi muito bom, fiquei muito feliz. A vida tem destas coisas e, nesse ano, o Natal chegou em setembro, pelo menos na minha vida, para mudar a minha vida. 

Você nasceu em um quilombo e imagino que você custou por manusear esses ingredientes tipo peito de peru, esse arsenal de coisas que no quilombo não tinha. Como é hoje para você fazer pratos que nunca tinha comido na sua infância?
Sem dramatizar, mas você tocou em um ponto bem sensível da minha história. Foi uma infância difícil neste aspecto e não imaginava que um dia eu iria me relacionar com essa culinária com ingredientes caros. Então, puxando pela memória, as lágrimas chegam antes das palavras. Eu preciso saber que foi nessa adversidade, no colo da avó, que eu dei meus primeiros passos na culinária. Não posso esquecer nunca isso e sempre agradecer por isso.

Algum restaurante que você gostaria de ir comer, por exemplo no Rio?
Eu não tenho um lugar específico no Rio de Janeiro onde gostaria de comer, tipo um restaurante de grife. Se a comida for boa, vou a qualquer lugar. Eu gostaria e ainda vou comer uma boa e farta caldeirada de lagosta. Acho que mereço.

Quando você entrou no reality, você já sabia que era uma coisa, assim, de um padrão elevado?
No começo, não vou mentir, fiquei com muito medo. Eu pensei ‘meu Deus, o que que eu tô fazendo aqui? Essas pessoas são de um outro mundo e eu vim de quilombo’. Deu aquele frio na barriga, mas o medinho passou. Tive que ser forte e fui. Não imaginava, por exemplo, dar uma entrevista para um jornal como estou dando para você.

A gente soube que você começou fazendo peixe em folhas de bananeiras, que é um clássico desde sempre. Mas a comida de vó também tem galinha, carne suína. 
Eu tenho a herança do quilombo. Um bom porco assado. Fazer a linguiça artesanalmente, uma feijoada mais que completa.

Me diga um sonho. 
Meu sonho? Meu próprio restaurante. E fazer a própria comida no fogão de lenha. E, Deus permitindo, chegando lá, ganhando um dinheiro, aí o meu restaurante vai sair. De comida de quilombo. 

Em Campos?
Em Campos, lógico.

E o esposo? Quem cozinha melhor, você ou ele? 
Ele tá chegando lá. Ele gosta muito de cozinhar, mas ele me ajuda. Ele está partindo com o meu sonho junto comigo e está sendo muito bom. Ele tá deixando tudo para seguir a carreira juntinho comigo. Tá muito bom. Vamos montar o restaurante juntos.

No futuro restaurante, que eu acho que o nome vai ser ‘Comida de Quilombo’, você vai cozinhar à lenha? 
Muita coisa vai ser cozinhada à lenha. Eu gosto. E é bem gratificante. Não quero fugir da minha tradição de Quilombo. E enquanto o restaurante não chega, eu vou cozinhando nas casas das pessoas que me contratam. A clientela, depois do Reality, aumentou.

Então você já é personal chef? 
Sim. A pessoa me contrata, escolhe o que quer comer e eu preparo tudo na casa dela. No momento, meu foco é esse e o futuro restaurante.

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