Medida considerada “excepcional e temporária” retoma preocupações sobre a vazão do Paraíba do Sul e seus impactos na foz

A autorização para que Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) amplie a captação de água do Rio Paraíba do Sul voltou a acender um sinal de alerta no Norte Fluminense. Embora a medida tenha sido classificada como “excepcional e temporária” pelo Instituto Estadual do Ambiente (INEA), especialistas e gestores locais chamam atenção para os efeitos acumulados da redução da vazão do rio, especialmente na foz, em Atafona, distrito de São João da Barra.
A decisão permite que São Paulo retire mais água da bacia para reforçar o Sistema Cantareira, responsável pelo abastecimento de cerca de 10 milhões de pessoas. Segundo os órgãos gestores, o sistema opera abaixo do esperado para o período de estiagem, o que motivou a autorização até 31 de dezembro de 2026.
De acordo com o INEA, a ampliação não compromete o abastecimento fluminense e prevê regras de segurança, como limites mínimos de vazão em Santa Cecília e monitoramento contínuo do sistema. Ainda assim, no fim da bacia, a preocupação é outra.
No Norte Fluminense, pesquisadores explicam que o Paraíba do Sul já chega historicamente mais fraco à foz, após décadas de barragens, transposições, retirada de água, estiagens e pressões climáticas. Com menos força, o rio transporta menos sedimentos: areia e material essencial para recompor naturalmente a praia.
Menos vazão, menos sedimento e mais erosão em Atafona
Estudos da Universidade Federal Fluminense (UFF) indicam que a vazão do Paraíba do Sul sofreu redução próxima de 30% ao longo das últimas décadas. Esse enfraquecimento estaria diretamente ligado ao avanço do mar em Atafona, um dos casos mais emblemáticos de erosão costeira do país.
Quando o rio perde capacidade de empurrar sedimentos para o oceano, o equilíbrio se rompe: o mar continua retirando areia, mas o rio já não consegue repor. O resultado é o recuo da linha de costa, a destruição de casas, ruas e equipamentos públicos, além do avanço da salinização.
A baixa vazão também traz outros impactos. Comunidades relatam dificuldade de captação de água, prejuízos à pesca, alteração de manguezais e maior entrada de água salgada no estuário, especialmente em períodos de seca prolongada.
Para Wellington Abreu, superintendente de Petróleo, Gás e Tecnologia de São João da Barra, mesmo autorizações temporárias precisam ser analisadas com cautela. “Menos água coloca em risco a captação daqui, prejudica a pesca e, somada à retirada de areia e às mudanças climáticas, só aumenta os danos ambientais para a região toda”, afirma.
Abreu defende que o problema vai além da nova autorização. “O Rio Paraíba do Sul merecia mais respeito e um projeto sério de recuperação: reflorestamento das encostas, monitoramento das nascentes e fiscalização dos despejos e areais. Esse descaso vem de décadas, e Atafona sente hoje o resultado disso”, diz.
Ele lembra que a erosão não é apenas um fenômeno do mar. “Atafona não é apenas vítima do avanço do mar, é também o retrato de um rio que chega cada vez mais fraco ao oceano”, resume.
Especialistas reforçam que a segurança hídrica não pode ser pensada de forma isolada. O Paraíba do Sul abastece milhões de pessoas em três estados, sustenta a agricultura, a pesca, a indústria e deságua em uma área ambientalmente frágil.
Por isso, defendem acompanhamento rigoroso e maiores estudos sobre os impactos da captação adicional, considerando todo o sistema da bacia.

