domingo, setembro 27

Dados do Hospital Ferreira Machado apontam cerca de 1,5 mil acidentes ciclísticos nos oito primeiros meses deste ano

Campos

27 de setembro de 2026 – 0h03

Alerta|Jovens e idosos estão nocentro da crise com os autopropelidos (Foto: Reprodução)

Cada vez mais cresce o número de acidentes de trânsito envolvendo veículos autopropelidos, que são os equipamentos elétricos de mobilidade individual, como pequenas motos, bicicletas, patinetes, monociclos e skates elétricos. Segundo o Hospital Ferreira Machado (HFM), somente entre janeiro e agosto de 2026 foram registrados 1.482 acidentes ciclísticos em Campos. A média foi de aproximadamente 185 acidentes por mês, com março concentrando o maior número de registros: 239. 

Um levantamento da Prefeitura de Campos aponta maior concentração de ocorrências em importantes eixos viários, como as avenidas 28 de Março, José Alves de Azevedo, Alberto Torres e Dr. Arthur Bernardes, além de vias localizadas em regiões como Jardim Carioca, Pecuária, IPS e Goitacazes. “Esses dados são utilizados para identificar pontos que demandam maior atenção e subsidiar medidas de prevenção e fiscalização. A fiscalização de trânsito é realizada pela Guarda Civil Municipal”, disse, em nota.

O HFM aponta dois grupos que atualmente despertam atenção especial: pessoas idosas que migraram da bicicleta convencional para esses equipamentos e menores de idade que conduzem ou são conduzidos nesses veículos.

No último fim de semana, aconteceu um acidente envolvendo um adolescente de 15 anos. Uma colisão entre um carro e uma motocicleta elétrica foi registrada na Avenida 28 de Março, no cruzamento com a Avenida José Alves de Azevedo, no Parque Rosário. “Houve um aumento considerável nos atendimentos de vítimas de acidentes envolvendo esse tipo de veículo. Pode-se estimar que três em cada dez atendimentos no Politrauma ou na Ortopedia esteja relacionado a acidentes com veículos elétricos”, afirmou a unidade.

De acordo com o diretor do Pronto-Socorro do HFM, o médico Fábio Macedo, as lesões mais frequentes nesses acidentes são escoriações e outros ferimentos de pele, além de contusões e fraturas: “As lesões que mais preocupam são as fraturas mais graves, incluindo as fraturas expostas e o traumatismo crânioencefálico”, afirma.

O impacto dos traumas sobre o atendimento também é significativo. O médico relata que entre 55% e 60% dos pacientes atendidos no pronto-socorro (PS) do Ferreira Machado passam pelo setor de Politrauma e/ou pela Ortopedia, frequentemente necessitando de atendimento nos dois locais. Do total de pacientes do PS, entre 15% e 20% precisam de abordagens cirúrgicas, de urgência ou eletivas, incluindo pacientes transferidos para instituições conveniadas ao SUS.

O profissional de saúde destaca então a importância dos equipamentos de proteção. “Principalmente o capacete no modelo fechado pode reduzir a gravidade dos traumas de crânio e face”, disse.

Infraestrutura não acompanha nova realidade
A presença dos autopropelidos no trânsito é um fenômeno recente e a Resolução CONTRAN nº 996/2023 que trata do tema tem apenas três anos. O município trabalha na regulamentação complementar, ainda de acordo com a Prefeitura. “Entre as medidas em elaboração está a definição das velocidades máximas permitidas nas ciclovias e ciclofaixas municipais. O trabalho é realizado em articulação com a GCM, responsável pela fiscalização e autuação no trânsito”.

O arquiteto e urbanista Renato Siqueira aponta como problemas que podem contribuir para um maior número de acidentes a má qualidade de algumas vias, com buracos, a falta de sinalização adequada e ausência de fiscalização. Siqueira destaca ainda outra questão: “Embora o limite de velocidade para autopropelidos seja de 20 km/h, não é raro observar equipamentos circulando acima dessa velocidade”, comenta.

“Essa situação ainda é agravada pela ausência de formação, no caso do ciclista e autopropelido. Da mesma forma quanto aos motoristas que dirigem sem carteira de habilitação, embriagados e, em velocidade incompatível com a via, o que aponta para outra ausência importante, a de instalação de equipamentos que possam registrar as infrações de velocidade incompatível e de avanço da sinalização viária”, completa.

Entre as medidas sugeridas pelo urbanista estão a criação de um curso de capacitação de, no mínimo, 30 horas para condutores de autopropelidos e ciclistas, campanhas educativas para todos os usuários do sistema de trânsito, registro desses usuários, fiscalização presencial e equipamentos capazes de verificar a velocidade dos veículos.

O profissional também defende a definição das vias e velocidades adequadas para a circulação dos autopropelidos, além de ações de fiscalização nos estabelecimentos que comercializam esses equipamentos, com auxílio do Procon. Outra medida citada é a possibilidade, mediante compatibilização com a legislação vigente, de impedir que menores de 18 anos utilizem determinados veículos autopropelidos. Siqueira defende ainda a efetivação do Conselho Municipal de Mobilidade Urbana (COMURB).

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