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    Violência contra animais é rotina silenciosa em Campos

    8 de fevereiro de 2026Nenhum comentário7 Mins Read
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    Segundo protetores, subnotificação esconde a real dimensão dos maus-tratos no município

    Realidade|Segundo ONGs, casos de abandono, espancamento, envenenamento e atropelamentos que se repetem nas ruas e bairros da cidade (Fotos: Silvana Rust)

    O que chocou o país no caso do cão Orelha, morto após ser brutalmente agredido em Florianópolis (SC), é apenas a ponta de um problema profundo. Em Campos, a violência contra animais acontece de forma contínua, longe dos holofotes, contra seres que não têm voz. São casos de abandono, espancamento, envenenamento e atropelamentos que se repetem nas ruas e bairros da cidade. Com o tempo, essas situações deixam de causar surpresa e entram para a rotina. A crueldade vira número, perde a história por trás de cada caso e o sofrimento que quase nunca aparece nas estatísticas.

    Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram que, em 2024, foram registrados 17 crimes de maus-tratos a animais em Campos. Em 2025, até setembro (último período divulgado pelo órgão) os números já se aproximaram disso, com 16 casos reportados, retrato da persistência do problema. No Estado do Rio de Janeiro, o Disque Denúncia registrou mais de 17 mil denúncias de crueldade contra animais em 2025, um aumento de quase 28% em relação ao ano anterior; desses casos, 90% envolvem cães, gatos e cavalos.

    Frequência|Pessoas que dedicam suas vidas a cuidar de animais denunciam que a violência em Campos é rotina (Fotos: Reprodução)

    A realidade das ruas
    Para quem vive a causa na rua, os números não traduzem a realidade cotidiana. Para a protetora Lenita Arenari, que há quase duas décadas atua no resgate de cães em Campos, através do abrigo Bela Cachorrada, a violência assume formas que muitas vezes passam despercebidas.

    Lenita Arenari

    “Maus-tratos não são só casos extremos. Começam quando o animal é mantido preso no quintal, sem água, no calor, sem acompanhamento de saúde. Quando alguém passa por um animal atropelado e não aciona nenhum órgão, isso também é uma forma de violência”, afirma.

    Lenita ressalta ainda que muitos episódios não entram nas estatísticas oficiais. “A gente lida com animais esfaqueados, envenenados, baleados ou atropelados, mas nem sempre consegue registrar tudo. Por isso, os números acabam sendo menores do que a realidade”, completa.

    Essa percepção é compartilhada pela jornalista e ativista Thaís Tostes, pós-graduanda em Direito Animal, que acompanha de perto a realidade de maus-tratos no município. Para ela, o impacto do caso Orelha escancarou algo que, em Campos, acontece com frequência alarmante.

    “Ver que casos como o do cachorrinho Orelha são recorrentes aqui é perceber o quanto a vida animal ainda é banalizada. O animal segue sendo tratado como objeto, e não como sujeito de direito garantido pela Constituição. Já vi animais com a cabeça aberta por facão, cavalos com o corpo inteiro cortado, casos de envenenamento e disparos de arma de fogo. São cenas tão extremas que é impossível apontar uma como a mais difícil”, afirmou.

    Erica Naegele

    Enquanto a violência se acumula nas ruas, a resposta estrutural não cresce no mesmo ritmo. Para quem está na linha de frente, salvar vidas virou uma corrida diária contra o tempo. É o que afirma Érica Naegele, presidente da Associação Grupo Amigo dos Animais (Agrada).

    “Estar à frente de uma associação de proteção animal é quase impossível sem apoio público. Recebemos milhares de pedidos de ajuda todos os dias: animais atropelados, abandonados, vítimas de crueldade. Mas não há abrigos suficientes, nem um hospital veterinário público para atendê-los. Embora existam leis sancionadas para abrigos e hospital, nada foi executado”, diz.

    Lei existe, mas aplicação ainda é frágil
    No Brasil, a Constituição Federal proíbe qualquer ato de crueldade e obriga o Estado a proteger os animais. Isso significa que maltratar, ferir ou abandonar um animal é crime punido por lei. Recentemente, a legislação foi endurecida para casos envolvendo cães e gatos: o agressor pode ser condenado a até cinco anos de prisão, além de multa e perda do direito de guarda de animais, encerrando a prática de punições leves, como penas alternativas.

    Na prática, porém, quem vive a realidade dos resgates aponta que o rigor legal nem sempre se traduz em responsabilização efetiva.

    Segundo Érica, essa resposta não consegue acompanhar a urgência. “A cidade talvez entenda a gravidade, mas enquanto infratores não forem severamente punidos, muitos continuarão a pensar que podem tratar seus animais como quiserem”, completa.

    Joseth Bravo

    Para Joseth Bravo, também protetora que atua em resgates de animais, a sensação também é de impunidade constante. “Campos ainda parece terra sem lei: mesmo quando alguém é preso, muitas vezes é solto no dia seguinte, rindo da gente. Precisamos de campanhas em escolas, condomínios, shopping. Pais devem ensinar os filhos a respeitar, porque maus-tratos não são pequenas infrações, é violência”, conta.

    A ajuda que quase nunca chega
    No abrigo mantido por Lenita, o sofrimento dos animais se acumula em silêncio, longe das estatísticas e do olhar da maioria da população. A rotina é marcada por cenas que raramente chegam aos registros oficiais e deixam marcas em quem tenta salvar vidas.

    “As pessoas não fazem ideia do que a gente vê. Cachorros deficientes se arrastando no chão, animais abandonados à própria sorte, feridos, doentes, esperando ajuda que quase nunca chega. A sociedade não vive o que o protetor vive todos os dias. São fotos, pedidos de socorro o tempo inteiro. A gente não tem tempo nem pra gente, quanto mais para registrar ocorrência”, relata.

    “Hoje cuido de mais de 200 cachorros. Conviver com esse número é um sofrimento diário. Eles chegam debilitados, alguns não são adotáveis e ficam com a gente até morrer. Muitas vezes falta ração, faltam recursos para clínica, e eu vejo o sofrimento deles. Todos os dias penso em desistir. Já se passaram anos de esforço e ainda parece que estamos enxugando gelo. Gostaria que a Prefeitura entendesse a responsabilidade dela”, completa.

    O que dizem os órgãos públicos
    Se por um lado há relatos tão intensos, por outro o poder público afirma que a estrutura existe, mas reconhece desafios.

    Em nota, o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) informou que o município conta com um canil público que acolhe animais vítimas de maus-tratos, providenciando tratamento, vermifugação e vacinação, com foco na adoção responsável. Segundo o CCZ, cerca de 2 mil animais foram adotados em 2025 e, no Dia D de vacinação antirrábica, foram aplicadas 35 mil doses de vacina.

    O órgão reforça que atua com a Polícia Civil e Militar, uma vez que os maus-tratos configuram crime previsto em leis federais e estaduais. Afirma ainda que age de maneira ativa na orientação sobre bem-estar animal, promovendo campanhas educativas e protocolos de atendimento, e que desde 2021 já foram realizadas mais de 23 mil castrações, como forma de controlar a população e prevenir abandono. Sobre o Castramóvel, o CCZ reconhece a alta demanda e afirma atuar de forma integrada com o canil municipal e seu centro cirúrgico para ampliar alcance.

    A Polícia Civil, por meio de nota, orientou que todos os casos de maus-tratos sejam devidamente registrados para possibilitar a identificação e responsabilização criminal dos envolvidos. Informou ainda que os dados estatísticos são compilados e divulgados pelo ISP, conforme a tipificação legal dos delitos.

    O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) se movimentou e reconheceu institucionalmente um problema que protetores denunciam há anos. Na última semana, foi instituído o Núcleo de Proteção e Defesa dos Animais (NPDA), no âmbito do Grupo de Atuação Especializada em Meio Ambiente (GAEMA). A iniciativa prevê atuação técnica e permanente em casos de violência e crueldade, reconhecendo que o enfrentamento ao problema exige continuidade, fiscalização e compromisso institucional.

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