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    Venezuelanos em Campos: fé e saudade

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    Imigrantes relatam expectativas para o país de origem mergulhado há anos em crise política e econômica

    Geral

    18 de janeiro de 2026 – 0h05

    Esperança|Juan, Maireth e família e René torcem pelo futuro da venezuela, que ainda é incerto (Fotos: Arquivo Pessoal)

    A crise política, econômica e social da Venezuela continua repercutindo desde a prisão do presidente Nicolás Maduro pelo governo americano de Donald Trump. Em Campos dos Goytacazes, imigrantes venezuelanos relatam experiências marcadas por acolhimento no Brasil, saudade da terra natal e incertezas sobre o futuro do país. Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), mais de 9 milhões de venezuelanos vivem atualmente como refugiados ou migrantes em diferentes países, número superior a um quarto da população estimada do país antes do êxodo, que era de cerca de 32 milhões de habitantes em 2016. Desse total, mais de 510 mil venezuelanos já cruzaram a fronteira com o Brasil.

    O violinista venezuelano René Hernández mora em Campos há pouco mais de dois anos e integra a ONG Orquestrando a Vida. Ele destaca os impactos econômicos e psicológicos da crise no país de origem. “A principal expectativa é uma melhora nos salários. Com poucas oportunidades e remunerações muito baixas, as chances de melhorar de vida são mínimas. A população foi muito machucada emocionalmente. As pessoas estão divididas entre quem apoia e quem não apoia a intervenção dos Estados Unidos. Essa é uma ferida que ainda precisa ser curada entre os próprios venezuelanos”, diz. Sua família permanece na Venezuela, no município de Araure.

    A dona de casa Maireth del Valle Becerra chegou ao Brasil em 2018 com o esposo, o engenheiro mecânico Erik Márquez Durán. Ela estava grávida e relembra com emoção a chegada a Campos e a forma como a família foi recebida. “Fomos cercados de pessoas que nos acolheram com carinho, com doações e apoio. O jeito do brasileiro, especialmente do campista, foi muito receptivo. Nunca sofremos xenofobia”, afirma. Em Campos, o casal teve dois filhos: Cristopher Mateo, de sete anos, e José Mathias, de cinco anos. Segundo Maireth, o início foi desafiador. “Tudo era novo: o idioma, o trabalho, o pré-natal, as vacinas. Fomos muito felizes em Campos, onde compramos uma casa”, recorda.

    Recentemente, Maireth e a família se mudaram para o estado de Rondônia. Erik foi gerenciar o setor de uma usina hidrelétrica, próximo a Porto Velho. Ela relata preocupação com os parentes que permanecem na Venezuela, especialmente diante da instabilidade econômica. “Os preços subiram muito, algumas coisas estão em falta, postos de gasolina e comércios estão funcionando de forma reduzida. O clima é de medo”, relata. Ela também lamenta perdas pessoais causadas pela crise. “Já são oito natais longe da minha família. Minha irmã faleceu em 2024, de câncer, e eu não pude ir ao funeral. O governo nos roubou momentos que o dinheiro não compra”, desabafa Maireth.

    O professor e cantor Juan Gorrin vive atualmente entre o Brasil e a Espanha. Ele chegou a Campos em 2015. “Mesmo morando fora, não tem como se desligar da Venezuela. Estou sempre acompanhando as notícias e falando com familiares e amigos. Os acontecimentos recentes trouxeram surpresa. A notícia da prisão de Nicolás Maduro gerou uma sensação de incerteza, mas, ao mesmo tempo, reacendeu uma esperança que parecia perdida. O mundo sempre soube da realidade do país, mas nada concreto tinha sido feito. Mesmo com tanto petróleo, a Venezuela está mergulhada na pobreza por causa de uma gestão que busca enriquecer”, completa.

    Um brasileiro na Venezuela
    Com uma relação de mais de 30 anos com a Venezuela, o maestro Jony William Vilella afirma ter acompanhado a transformação do país, que passou de um cenário de prosperidade para uma realidade de decadência social e estrutural. Segundo ele, a Venezuela que conheceu era moderna, rica e acolhedora, com forte investimento em cultura, tecnologia e infraestrutura. Lá, foi criado o projeto “El Sistema”, que atende crianças e adolescentes pobres por meio do ensino e da prática musical em orquestras sinfônicas. O método foi pioneiro em Campos e inspirou a formação da ONG Orquestrando a Vida.

    “Nos últimos anos, porém, vi um país sucateado, marcado pelo aumento da violência, empobrecimento da população e abandono de áreas antes valorizadas.” Jony destaca o surgimento de favelas em regiões próximas a universidades e lembra que a circulação nas cidades passou a exigir escolta, mesmo em compromissos oficiais. “É triste ver um país antes próspero chegar a esse ponto.”

    Os depoimentos revelam um sentimento comum: a esperança de que a Venezuela possa reencontrar o caminho da democracia e da reconstrução. René Hernández afirma que descrever a atual situação do seu país é bastante complicado. “No momento, todos nós aguardamos para ver o que vai acontecer, tentando manter um pensamento positivo sobre o que pode surgir dessa relação entre os dois governos para termos um futuro melhor”, conclui.

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