Especialistas e representantes de instituições discutem meios para preservar bens culturais, atrair investimentos e fortalecer a identidade local

A Jornada do Patrimônio Fluminense reúne, nesta quinta-feira (5), em Campos, especialistas, historiadores, representantes do poder público, empresários e agentes culturais para discutir uma questão central: como preservar o patrimonio histórico e cultural e, ao mesmo tempo, criar condições para que ele continue sendo utilizado, reconhecido pela população e integrado ao desenvolvimento da cidade.
A realização no Dia Nacional da Cultura também dá um significado especila ao encontro. Mais do que falar sobre prédios antigos, a proposta da Script Consultoria Histórica e Projetos Culturais, organizadora do evento, é discutir memória, identidade, práticas culturais, turismo, financiamento e possibilidades de geração de trabalho e renda. O desafio é encontrar caminhos para que a preservação não dependa apenas de iniciativas pontuais, mas de planejamentp, recursos e participação conjunta da sociedade.
A programação reúne debates sobre restauração, requalificação do Centro Histórico, patrimônio imaterial, paisagem natural, financiamento e gestão. Também aborda uma dificuldade prática: como conseguir recursos para recuperar imóveis e garantir que eles continuem funcionando depois das obras. A mesa “Quem paga a conta do patrimônio?” trata da sustentabilidade financeira dessas iniciativas.
Outro objetivo é aproximar setores que nem sempre trabalham em conjunto. Historiadores e técnicos contribuem com pesquisa e conhecimento sobre os bens culturais, o poder público pode atuar com políticas e recursos, a iniciativa privada pode participar da ocupação e manutenção dos espaços. E a população, que precisa, de acordo com a organização, reconhecer esses lugares como parte de sua própria história.
Patrimônio como oportunidade para Campos
A historiadora Rafaela Machado, representante da Script, explica que a Jornada busca mudar a percepção de que preservar o patrimônio representa apenas despesa ou obrigação.
“A Jornada tem um objetivo muito claro, que é pensar o patrimônio para além do que comumente se pensa, um problema, um gasto. Patrimônio é potencial, patrimônio é um investimento para o retorno financeiro, cultural”, afirma.
Rafaela citou como exemplo a ocupação de imóveis históricos por empresas, mencionando a sede do J3News. “Aquele prédio que a gente não morou fala sobre a história da nossa cidade. E é isso que a gente quer que todo campista, que todas as pessoas da região olhem para todo o potencial que existe. Aqui no centro da cidade temos, por exemplo, um caso muito bem sucedido que é a sede da Terceira Via [hoje J3News]. Que mais empresas possam ocupar edificações históricas, que mais empresas possam entender o patrimônio enquanto potencial”, completa.
A revitalização do Centro de Campos também esteve entre os assuntos. O presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), Fábio Paes, participou das discussões e defendeu a valorização dos imóveis históricos como parte de uma estratégia de desenvolvimento econômico. Na avaliação de Fábio, o primeiro passo é ampliar a conscientização sobre o valor do patrimônio.
“Patrimônio histórico tem um valor. Não apenas um valor histórico de ser um prédio bonito, tem um valor econômico por trás. A partir do momento que receber algum projeto que possa ressignificar aquele prédio, ele pode se tornar um grande ativo econômico de atração de negócios. Então, essa jornada, acho que vai abrir muitos horizontes, uma visão grandiosa para a Campos nesse sentido, que o patrimônio histórico pode caminhar junto com o desenvolvimento econômico”
Participação conjunta
Representando o Ministério da Cultura, Charles Vianna, coordenador de articulação do Sistema Nacional de Cultura, destacou a importância de fortalecer as políticas públicas e ampliar a participação de diferentes setores na preservação.
“Campos é referência no patrimônio no estado do Rio de Janeiro, então fortalecer esse debate, as políticas públicas e recursos e as possibilidades que a gente tem é muito importante. Então, eu acho que esse evento fortalece o papel da sociedade civil, o papel do poder público, do governo federal e, unidos, a gente consegue buscar alternativas para fortalecer o patrimônio na cidade.
Charles também relacionou a preservação à economia criativa e à geração de oportunidades. “É muito importante a gente pensar a cultura e a economia criativa que a gente tem através disso. Fortalecimento do patrimônio perpassa por diversos setores. A cultura hoje está presente em praticamente todos os setores e ela fortalece a economia das cidades que têm esse patrimônio como referência. Então, a gente pode buscar várias cidades no nosso próprio país que tem atuado com o patrimônio como fortalecimento da sua economia”, completa.
A programação também apresenta experiências de outros municípios, como Paraty, Maricá e Engenheiro Paulo de Frontin, além de atividades práticas no Sebrae voltadas à elaboração de projetos culturais, acesso a editais e desenvolvimento de produtos turísticos. A intenção é que as discussões não fiquem apenas no campo teórico, mas ajudem a identificar caminhos para iniciativas futuras.
A Jornada do Patrimônio Fluminense é realizada pela Script Consultoria Histórica e Projetos Culturais, com apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) e da ACIC. As atividades principais acontecem na sede da associação, no Edifício Ninho das Águias, na Praça São Salvador, enquanto oficinas e rodas de conversa também ocupam o espaço do Sebrae Campos.

