Por Leonardo Barros

Há vitórias que marcam mais do que títulos. Uma máxima do futebol vivida pelo “zagueiro artilheiro” Tinho em 24 de abril de 2003, quando o Paysandu fez 1 a 0 no Boca Juniors, na La Bombonera, em Buenos Aires. O cria do Parque Guarus foi titular no “Bombonerazo” no jogo de ida das oitavas de final da Taça Libertadores, que entrou para a história do futebol sul-americano. Antes disso, apenas um brasileiro tinha alcançado o feito: o Santos de Pelé na década de 1960.
“Foi um momento inédito e histórico. O Paysandu fez uma campanha sensacional na primeira fase (quatro vitórias e dois empates), mas pegou o poderoso Boca Juniors nas oitavas. Poucos acreditavam na gente, mas vencemos fora de casa com gol do Iarley. Tivemos dois jogadores expulsos, superamos a pressão para garantir o bom resultado. O jogo de volta não foi como esperávamos, mas nada apaga o que fizemos”, conta Tinho.
Em Belém, os argentinos venceram por 4 a 2, acabando com o sonho da classificação. Na temporada, o Boca foi campeão da Libertadores e do Mundial de Clubes. “Fiquei no Paysandu de 2002 a 2004. Cheguei depois do título da Copa dos Campeões, que garantiu a vaga na Libertadores de 2003. Tínhamos a missão de manter o Paysandu na primeira divisão e conseguimos. Acabei me aposentando no clube, meus joelhos não aguentavam mais”, conta o campista, que foi campeão Paraense em 2002, que também passou por Portuguesa, America-RJ e Sport.
Início na Rua do Gás
Os primeiros passos no futebol foram nos campos da Rua Casimiro de Abreu, no Parque Guarus, e do Madureira, no Jardim Carioca. O garoto se destacou e, aos 13 anos, passou em um “peneira” no Goytacaz. Fez toda a base no Estádio Aryzão, até subir ao profissional nas competições de 1989 e 1990. O destaque o levou até o Vasco, onde voltou para o time de juniores.
“A experiência no profissional do Goytacaz me ajudou muito na base vascaína. Participei de uma das melhores gerações formadas no Vasco. Edmundo, Leandro Ávila, Pimentel, Alex Pinho, entre outros grandes jogadores. Ganhamos a Taça BH e a Copa São Paulo. Fui um dos destaques, que abriu caminhos para minha chegada ao time principal”, conta.
Em São Januário, foram quase dez anos de sucesso. Foi tricampeão Carioca e Brasileiro, além do Troféu Palma de Mallorca, quando o Cruzmaltino venceu o Barcelona de Figo e Guardiola. Porém, as conquistas foram compartilhadas com dores. Duas cirurgias do ligamento cruzado anterior do joelho direito atrapalharam os últimos anos em São Januário.
“Sofri com lesões. Em 1998, precisava jogar depois de um longo tempo me recuperando. Fui para o Americano, onde fiz um bom Campeonato Carioca. Voltei para o Vasco, que tinha formado um grande elenco para a temporada. Aceitei a proposta do Al Alhi, da Arábia Saudita. Tive ritmo de jogo, a questão financeira foi muito boa, mas era uma outra época. Quem jogava lá acabava ficando esquecido pela mídia”, diz.
Zagueiro artilheiro
De volta ao Brasil, Tinho se tornou ídolo do Santa Cruz. Em 1999, foi o capitão do time vice-campeão do Brasileiro da Série B. Além de comandar a defesa, o campista foi decisivo no ataque. Fez três gols no quadrangular final, garantindo o retorno à primeira divisão, após um jejum de 11 anos. A idolatria é vista até os dias de hoje, quando o campista visita a capital de Pernambuco.
“Tenho muito carinho e respeito pelo Santa Cruz. Fiquei quatro meses no clube, alcançamos o objetivo da vaga na Série A. Tinha uma ansiedade muito grande por esse retorno, a torcida muito apaixonada, sempre presente no Arruda. Recebo mensagens dos torcedores até hoje nas redes sociais. Alguns eram crianças na época e me agradecem por ter realizado o sonho deles”, conta.
Com bons chutes de fora da área e frieza nas cobranças de pênaltis, Tinho levou a fama de “zagueiro artilheiro” pelos clubes, desde as divisões de base. Não tem certeza, mas acredita que marcou por volta de 40 gols. Muito para um zagueiro. “Na base fiz uns 30 gols. Comecei como lateral-direito no Goytacaz e depois fui para a zaga, mas sem perder a fama de artilheiro (risos)”.
Morando em Belém com a família e com a experiência do futebol, Tinho tem um projeto de personal soccer, com aulas individuais de fundamentos do futebol, principalmente para crianças e adolescentes. Costuma ir a Campos uma vez por ano para visitar a mãe, os irmãos e amigos. “É a minha cidade, onde tudo começou”.

