domingo, maio 10

.

Artigo

10 de maio de 2026 – 0h01

Tiago Abud – Articulista e Defensor Público – O Instituto Fogo Cruzado é uma organização da sociedade civil, que utiliza tecnologia e inteligência de dados, para mapear a violência armada em tempo real. No exercício dessa função, divulga dados abertos e colaborativos para monitorar tiroteios em regiões metropolitanas (Rio de Janeiro, Recife, Salvador, Belém), visando preservar vidas e subsidiar políticas públicas. Carlos Nhanga, coordenador regional do instituto no RJ, escreveu uma apresentação recente, dando conta da falaciosa propaganda de sucesso da Operação Contenção, levada a efeito pelas polícias do estado.

Concluiu que, seis meses após a operação, que resultou em 122 mortes nos Complexos da Penha e do Alemão, o cenário na Zona Norte do Rio de Janeiro desmente a retórica oficial de “sucesso”. Os dados do Fogo Cruzado desmentem a versão da operação ter sido um golpe estratégico contra o crime organizado, já que comprovam que o número de tiroteios e vítimas na região não recuou, mesmo depois do confronto sangrento. Até apresentou uma leve tendência de alta.

A manutenção do domínio territorial pelo Comando Vermelho e a permanência de alvos principais em liberdade evidenciam a falência de um modelo baseado puramente no confronto. Esse padrão de “megaoperações” repete um ciclo vicioso: um saldo elevado de mortos, serviços públicos suspensos e, logo em seguida, o retorno a uma normalidade violenta, sem qualquer desarticulação real das estruturas criminosas. Mais do mesmo.

Além do custo humano, a operação expõe a precariedade dos mecanismos de controle. Das centenas de agentes envolvidos, apenas parte usaram câmeras corporais, gerando um volume de dados que a Polícia Federal levará anos para processar. A Defensoria Pública sequer recebeu as imagens das câmeras corporais usadas no dia do episódio sangrento. A quem interessa esconder a verdade sobre o ocorrido?

A ausência de metas verificáveis e de indicadores de desempenho transforma a segurança pública em um espetáculo de força sem resultados práticos. Sem uma mudança estrutural que priorize a inteligência e a investigação em detrimento do confronto letal, a “próxima operação” continuará sendo um prenúncio de novas tragédias, sem que o mapa do crime sofra qualquer alteração significativa. O Rio de Janeiro permanece preso a uma política que produz luto, mas não produz paz. Quem lucra com isso? Certamente não é o povo.

O conteúdo dos artigos é de responsabilidade exclusiva dos autores e não representa a opinião do J3News.

Share.
Leave A Reply

Exit mobile version