Edifício centenário atingido por incêndio em 1990, passa por obras desde 2012; banda já investiu mais de R$ 1 milhão com recursos próprios

(Fotos: Silvana Rust)
Um dos mais importantes símbolos da memória musical de Campos dos Goytacazes, a Sociedade Musical Lyra de Apollo mantém o desafio de preservar não apenas sua história, mas também o prédio centenário que abriga a banda. Com 156 anos de existência, a instituição ocupa desde 1914 o imóvel que, ao longo das décadas, tornou-se parte da paisagem e da identidade cultural da cidade. Depois de ser atingido por um incêndio em 1990, o edifício entrou em um longo processo de restauração, iniciado efetivamente em 2012. Parte dessa história é contada na reportagem especial “Abandono põe sob ameaça patrimônio histórico de Campos”.
À frente da instituição desde 2002, o maestro Ricardo de Azevedo Maia acompanha de perto cada etapa das obras. Segundo ele, mais de R$ 1 milhão já foram investidos na restauração com recursos próprios. O trabalho exige materiais específicos e profissionais especializados, além do cumprimento das normas estabelecidas pelos órgãos de preservação do patrimônio.


“Nós já gastamos aqui mais de R$ 1 milhão, porque aqui é restauração. O material é especial, o engenheiro tem que ser um engenheiro especialista em restauro, quem trabalha executando os nossos trabalhos também tem que ser um profissional especialista para poder trabalhar na área de restauro. Então, tudo é muito caro”, explica o maestro.
A restauração da Lyra de Apollo representa, além da recuperação de um edifício histórico, a resistência de uma instituição que continua apostando na preservação da memória cultural de Campos.
De acordo com Ricardo, a parte interna do prédio está aproximadamente 90% concluída. A próxima etapa depende de intervenções na área externa, especialmente na fachada. Para isso, a instituição precisa solucionar um problema que envolve a presença de um poste, um transformador e uma linha de alta tensão instalados em frente ao imóvel.


“Nós estamos fazendo agora o projeto de arquitetura. Precisamos nos livrar, na frente da Lyra, de um poste, de um transformador e de uma linha de alta tensão que passa no poste, para que a gente possa começar a trabalhar a fachada do prédio”, afirma.
O processo de restauração também envolve profissionais que acompanham a obra há anos. O mestre de obras Jailton Balthazar está no local desde 2012 e participa diretamente da recuperação das estruturas do prédio. Para ele, apesar do longo período de trabalho, a rotina envolve a continuidade das atividades de restauração e a utilização de mão de obra especializada quando necessário.
“Trabalho sozinho. Só quando tem alguma coisa em que eu preciso de um auxiliar, aí a gente chama alguém especializado para ajudar no trabalho. Mas a maioria das coisas é sozinho”, conta Jailton.
O mestre de obras destaca ainda a satisfação de acompanhar a transformação do imóvel ao longo dos anos. Segundo ele, ver a recuperação de uma construção que chegou a estar em situação de abandono representa uma realização profissional e pessoal.
“É satisfatório. Ver uma obra concluída é realmente satisfatório. A gente vê que começou do escombro e finalizar realmente é muito satisfatório”, afirma.
A expectativa pela conclusão também é compartilhada pelo maestro Ricardo, que espera devolver à cidade o prédio restaurado em sua plenitude. Para ele, a preservação da Lyra de Apollo representa também a manutenção de parte da história de Campos.
Conjunto arquitetônico em risco
A preocupação com o patrimônio histórico, porém, ultrapassa os limites da sede da banda. Ricardo lamenta a situação de outros imóveis históricos da cidade que pertencem ao poder público e enfrentam problemas de conservação. Entre os exemplos citados estão o prédio que abrigou o Museu Olavo Cardoso e o Hotel Gaspar.


“É lamentável que os próprios prédios que pertencem à Prefeitura fiquem desabando. Um exemplo muito triste é o prédio da Rua 7, que foi uma doação da família de Olavo Cardoso, e a própria Prefeitura não cuidou. O prédio está caindo”, afirma.
O maestro também chama a atenção para o Hotel Gaspar, imóvel que, segundo ele, foi doado à Prefeitura pela Santa Casa e permanece fechado. Para Ricardo, a situação demonstra a necessidade de maior compromisso do poder público com a preservação dos bens históricos.


“O Hotel Gaspar também foi doado para a Prefeitura pela Santa Casa e está fechado. O Hotel Gaspar é outro patrimônio muito grande de Campos. A gente fica triste porque o próprio Poder Público não tem a consideração de conservar”, diz.
Enquanto aguarda a conclusão das obras, a Lyra de Apollo segue preservando sua história por meio do esforço de músicos, dirigentes e profissionais envolvidos diretamente na recuperação do prédio. O mestre de obras Jailton Balthazar, que acompanha o processo desde o início da atual etapa de restauração, espera estar presente quando finalmente chegar o momento da inauguração. Questionado se estará na cerimônia de conclusão do trabalho, ele responde com simplicidade: “Se Deus quiser, estaremos juntos”, conclui.
